Credo Missionário

1 – Cremos que Deus nos chamou e nos enviou a anunciar o Evangelho
      de seu Filho a todos os pontos da terra.
2 – Cremos que todos os baptizados, membros da Igreja, são
       missionários e missionárias por vocação.
3 – Cremos que a missão é a resposta ao plano de Deus, que no seu
        imenso amor e vontade, quer que todos conheçam a Verdade.
4 – Cremos que a vontade de Deus é que todos acreditem em Jesus Cristo
       Seu único Filho, se salvem e tenham a vida eterna.
5 – Cremos que podemos ser missionários sem sair da nossa aldeia ou
       da cidade, pois o nosso país é terra de missão.
6 – Cremos que como seguidores de Cristo, devemos comportar-nos
       de maneira firme e digna da vocação a que fomos chamados.
7 – Cremos que o mundo necessita de ver e sentir o nosso testemunho
       de amor, de esperança e de alegria por sermos cristãos.
8 – Cremos que o Espírito Santo nos dará energia, vontade e imaginação
       para lutar contra a corrente adversa e enfrentar perseguições.
9 – Cremos que os cristãos, tal como Jesus, são chamados a caminhar na
       História ao lado de todos os que sofrem.
10 – Cremos que a Virgem Maria caminha connosco, transmitindo ao
         nosso coração o que disse nas Bodas de Cana: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
   (Arranjo de Artur Soares)

La Ultima Cima

Eu conheci Pablo Dominguez!
Cada vez gosto mais de ter estado em «San Dámaso» e pela primeira vez dei valor ao Diploma que me deram: ele era o Decano de Teologia!

Meta-carta a Deus (endereço desconhecido)

A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando verei aquele de que tenho tanta sede? As lágrimas são o meu pão de dia e de noite, eu que todo o tempo ouço perguntar. – onde está o teu Deus? (SI 41, 1-4)

1. Quase já não escrevo cartas. Respondo a chamadas telefónicas; respondo, se não suspeito da fonte, aos chamados que me chegam do céu (electrónico). Escrever, até pela dificuldade que teriam os destinatários em decifrar os gatafunhos em que inconscientemente entrei, tornou-se raro. Há desvios e perdas de correio por culpa (minha) da letra. E aqui começa o problema: faz parte do destino da carta perder-se, extraviar-se. Há uma fórmula que adverte para esse extravio: atopos ho Théos.
Esta fórmula diz que nem o sagrado nem o numinoso são Deus. «Onde moras?», perguntam aqueles a quem a palavra é dirigida em primeiro lugar (Jo 1, 36) e que seguem aquele que não tem sequer uma pedra onde repousar a cabeça. Outro problema: o do destinatário. Acontece-nos escrever não sabendo se aquele a quem escrevemos ainda vive. F. Nietzsche traçou um primeiro prognóstico em 1886: «O acontecimento recente mais importante é este: Deus morreu.» E se mudou de morada, se não está disposto a responder-me? As cartas ao Pai Natal são de negócio e fingimento, não são cartas de amor. Deus vem de Deus, de graça, não vou por aí. Escrever só para pedir é mesquinho. Também não enviarei uma carta ao Javé ou ao Deus teológico (Jesus Cristo) de H. Bloom que, pelos vistos, nem sequer se conhecem. Sei, porém, que toda a escrita é uma prática do espaço (do desejo e da página em branco). Sei que “a linguagem se ouve mas que o pensamento se vê”  (Agostinho di-lo no De Trinitate). A palavra cruza-se no espaço do que escreve, do que joga, do que vê. Sei que a Deus se vai com palavras, mesmo sabendo que o drama da interlocução se instalou entre os humanos e que o sentido (da língua) se pode tornar uma impostura. A teologia da de Deus, mas, ao mesmo tempo, fala de um Deus que fala aos humanos, supostamente capazes de lhe dar o seu assentimento, revelando-os a si mesmos a partir de um horizonte «não mundano», logorreico, da palavra. Lactâncio dizia que Deus, por ser um Deus vivo, está sempre em movimento, é capaz de adfectus, de paixão, e que é portanto capaz e amor e de cólera. Este é também o ponto de vista de Bernardo Soares: «Onde está Deus, mesmo que não exista?… um regaço para chorar, mas um regaço enorme sem forma, espaçoso, como uma noite de verão e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de uma lareira qualquer… Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de não sei que futuro… ». Um Deus feminino, à maneira de Juliana de Norwich é um Deus a quem mais facilmente se vai. Se, como afirma Tertuliano: «Nada é, se não é um corpo. Nada é incorpóreo.», Deus há-de ter um corpo, logo há-de ouvir, falar, sentir.
Os pressupostos para falar (escrever) parecem desanuviar-se.
2. Reconhece-se a palavra pelos seus efeitos no corpo. O Teu nome está escrito no meu corpo como memória e futuro. Começo, pois a escrever-Te, porque, ao contrário de Kierkegaard que Te pensava imutável, eu creio que a minha (fala) escrita Te move e Te comove. Ao Deus causa sui ninguém pode rezar nem dançar. Aos místicos é o indizível que lhes dá o poder de falar. E a entrar, tem de ser pela roda da enunciação: eu, aqui e agora, escrevo-Te. Escrevo-Te com o punhado de palavras que me habita para dizer o mais além de mim que passa também pela treva luminosa das palavras e pelo fascínio dos nascimentos novos. A palavra é, de raiz, messiânica. Escrevo porque espero O teu advento. Escrevo para celebrar o Teu Nome, ao desabrigo dos nomes. Contra a idolatria conceptual que Te congelou no tempo. Contra o velho e cínico humanismo e o seu sonho demiúrgico de em tudo dar ao homem um trono e um altar. Escrevo para afirmar, não apenas para dizer os limites da linguagem ou a besta imunda que evoca o teu Nome para matar e torturar e vigiar. Creio, sim, que o nome que melhor Te convém continua a ser este: Amor.
Ou este outro: Misericórdia. Nunca Te vi, Deus abscondítus, apenas Te pressinto no olhar aflito ou alegre dos passantes. Apenas te pressinto na palavra, que é um vivo. Ou na pujança que move o mundo. Sim, o olhar transporta. O sentido é transpositivo. A palavra é legião: sei que não falo no deserto, alucinado e estéril. O magnificat é a forma mais jubilosa de ver o mundo como um milagre, de assistir à primavera, aos nascimentos e até às despedidas. Creio que Tu és o Verbo que se fez carne em Jesus e que habitou entre nós (Jo 1, 14). Porque não sei falar (escrever-Te) só queria mostrar as feridas das palavras varridas pela areia dos dias com que Te escrevo. Espero que, chegando à Páscoa, chegarei à palavra plena. Vou deixar de querer ver-Te: o Teu olhar me basta. Para os amantes, escrever foi sempre dizer: “Vem”! Que outra coisa poderia eu querer, escrevendo-Te?
Nasceu para o Céu a 5 de Maio 2011.

YOUCAT – Catecismo Jovem da Igreja Católica

Acabei de passar algum tempo com o YOUCAT nas mãos. Está muito bonito, agradável, sintético e incisivo!
O Catecismo, seja ele qual for, é sempre jovem, porque a sua jovialidade e beleza vêm da adesão a Jesus Cristo, que é sempre jovem: cheio de novidade, encanto e vida.
Mas esta edição, coordenada pelo Cardeal Christoph Schoenboorn, actual Arcebispo de Viena, está com uma redacção e grafismo muito agradável. O facto de este Cardeal ter sido o Secretário Geral do Catecismo da Igreja Católica dá-nos a certeza de esta edição destinada aos jovens, par além dos conteúdos, mantém a dinâmica interna do CCE.
A editora Paulus, que o edita em Portugal, além de o traduzir adaptou-o também ao nosso contexto, através da escolha de imagens ‘portuguesas’.
Mas mais do que o que eu diga, vejamos excertos a obra aqui.

A Saúde Mental do portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos,criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dosex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.


Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família.


Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.

Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito  com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.

Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.

E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso
Médico psiquiatra


Público, 2010-06-21