A Força do Símbolo


A liturgia, como ação eminentemente simbólica que é, educa sobretudo pela força do símbolo. Este, ao conectar com o mais profundo de cada pessoa, é um instrumento pedagógico fantástico para promover a conversão a Jesus Cristo, desde que nos deixemos transformar por aquelas realidades que são símbolos da ação salvífica de Deus realizada por Jesus Cristo, sob a ação do Espírito Santo.
Os símbolos, como realidades polissémicas que são, precisam de ser “guiados” na sua compreensão, para que não nos fiquemos na dispersão de significados. Por isso, «cada celebração sacramental é um encontro dos filhos de Deus com o seu Pai, em Cristo e no Espírito Santo. Tal encontro exprime-se como um diálogo, através de ações e de palavras. Sem dúvida, as ações simbólicas são já, só por si, uma linguagem. Mas é preciso que a Palavra de Deus e a resposta da fé acompanhem e deem vida a estas ações, para que a semente do Reino produza os seus frutos em terra boa. As ações litúrgicas significam o que a Palavra de Deus exprime: ao mesmo tempo, a iniciativa gratuita de Deus e a resposta de fé do seu povo» (CCE 1153).
Uma celebração sacramental é, então, tecida de sinais e de símbolos. Segundo a pedagogia divina da salvação, a sua significação radica na obra da criação e na cultura humana, determina-se nos acontecimentos da Antiga Aliança e revela-se plenamente na pessoa e na obra de Cristo.



Sinais do mundo dos homens. Os símbolos ocupam um lugar importante na vida humana. Sendo a pessoa humana um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais através de sinais e símbolos materiais. Como ser social, a pessoa tem necessidade de símbolos para comunicar com o seu semelhante através da linguagem, dos gestos e de ações. O mesmo acontece nas suas relações com Deus.
Deus fala-nos através da criação visível. O cosmos material apresenta-se à inteligência do homem para que leia nele os traços do seu Criador. A luz e a noite, o vento e o fogo, a água e a terra, a árvore e os frutos, tudo fala de Deus e simboliza, ao mesmo tempo, a sua grandeza e a sua proximidade.
Enquanto criaturas, estas realidades sensíveis podem tornar-se o lugar de expressão da ação de Deus que santifica os homens e da ação dos homens que prestam a Deus o seu culto. O mesmo acontece com os sinais e símbolos da vida social: lavar e ungir, partir o pão e beber do mesmo copo podem exprimir a presença santificante de Deus e a gratidão da criatura para com o seu Criador.
As grandes religiões da humanidade dão testemunho, muitas vezes de modo impressionante, deste sentido cósmico e simbólico dos ritos religiosos. A liturgia da Igreja pressupõe, integra e santifica elementos da criação e da cultura humana, conferindo-lhes a dignidade de sinais da graça, da nova criação em Cristo Jesus.

Sinais da Aliança. povo eleito recebe de Deus sinais e símbolos distintivos, que marcam a sua vida litúrgica: já não são unicamente celebrações de ciclos cósmicos e práticas sociais, mas sinais da Aliança, símbolos das proezas operadas por Deus em favor do seu povo. Entre estes sinais litúrgicos da Antiga Aliança, podem citar-se a circuncisão, a unção e a sagração dos reis e dos sacerdotes, a imposição das mãos, os sacrifícios e sobretudo a Páscoa. A Igreja vê nestes sinais uma prefiguração dos sacramentos da Nova Aliança.

Sinais assumidos por Cristo. Na sua pregação, o Senhor Jesus serve-Se muitas vezes dos sinais da criação para dar a conhecer os mistérios do Reino de Deus. Realiza as suas curas ou sublinha a sua pregação com sinais materiais ou gestos simbólicos. Dá um sentido novo aos factos e sinais da Antiga Aliança, sobretudo ao Êxodo e à Páscoa, porque Ele próprio é o sentido de todos esses sinais.

Sinais sacramentais. Depois do Pentecostes, é através dos sinais sacramentais da sua Igreja que o Espírito Santo opera a santificação. Os sacramentos da Igreja não vêm abolir, mas purificar e assumir, toda a riqueza dos sinais e símbolos do cosmos e da vida social. Além disso, realizam os tipos e figuras da Antiga Aliança, significam e realizam a salvação operada por Cristo, e prefiguram e antecipam a glória do céu.

Jesus fez-se História

Pelo mistério da Incarnação, Jesus inseriu-se numa história e num contexto cultural bem definido. Neste sentido, não foi diferente de nenhum de nós. Todos estamos ligados a uma terra, um credo e uma família. E a nossa vida é muitas vezes moldada pelo ambiente circundante em que vivemos. As nossas acções são reflexo do ambiente cultural e cultual em que estamos inseridos.
Jesus, o Filho de Deus, foi construindo o seu “álbum de memórias” ao longo de 33 anos que teve como pano de fundo várias terras da Judeia e da Galileia. De entre as várias localidades poderíamos destacar Belém, Jerusalém e Nazaré. Isto porque Jesus nasceu na Palestina, em Belém; viveu em Nazaré e percorreu todo o território da Galileia à Judeia. Acabou por ser crucificado às portas de Jerusalém, numa pequena colina chamada Calvário (ou Gólgota em aramaico).

Belém é um território da palestina sob o regime israelita e significa precisamente “a casa do pão”. Vem como que lembrar a história do povo de Israel que foi obrigado a partir de sobressalto, apenas levando o pão ázimo. O pão era o principal alimento de Israel, e por isso quando um judeu queria agradecer a Deus pelo alimento, levava o pão até ao templo.
Nazaré era, naquela altura, uma pequena aldeia com pouca importância, ao ponto de se afirmar: “de Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1, 46). Se, por um lado, isto era verdade, pelo outro, em termos messiânicos, adquiriu bastante valor. Esta era a povoação onde viviam os descendentes da família do rei David, entre os quais se inclui José e Maria. Foi aqui que Maria o Anjo interpelou Maria e ela glorificou o Senhor (Jo 1, 46-56); é também em Nazaré que a Sagrada Família se instala e Jesus passa grande parte da sua vida.
Em termos políticos e religiosos importa ter noções, ainda que breves. Quanto às classes sociais sabemos, pelo Novo Testamento, que seriam quatro: alta classe (onde se inclui os comerciantes, os escribas, doutores da lei e sumos sacerdotes); média classe (seriam os pequenos comerciantes, funcionários do estado, os publicanos, os escribas e os fariseus); classe pobre (os pastores, assalariados… o povo em geral); classe marginalizada (seriam essencialmente os pobres, viúvas, órfãos e doentes. Naquela altura, todos os que se encontravam nesta situação não pertenciam à sociedade e não tinham quaisquer direitos. Daí a preferências das primeiras comunidades por esta classe social (cf. Tg 1, 25)).
Em termos religiosos havia cinco grupos religiosos: fariseus (que se consideravam os santos e puros, guardiães da verdadeira fé cristã); saduceus (eram conservadores e acreditavam na ressurreição. (Mt 22, 23)); essénios (eram monges eremitas que viviam nas grutas de Qumram, junto ao Mar Morto); samaritanos (grupo separado dos judeus e que viviam em constante confronto com eles); zelotas (eram um dos vários grupos de resistência política contra os romanos).
Foi nestas circunstâncias que Jesus viveu a sua vida: rodeado de tensões tanto ao nível político como ao nível religioso. Viveu ainda num clima de expectativa, de ansiedade pela vinda do salvador que iria libertar o povo de Israel do domínio romano. Foi por isso que quando Cristo falou do Reino, muito entenderam num sentido político e não em termos escatológicos. Apesar de tudo, Jesus soube inculturar-se e não pretendeu fugir do mundo, mas antes comprometer-se com ele e apresentá-lo a Deus.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – VI

Globalização

Um dos elementos mais marcantes e também mais ambivalentes das transformações culturais dos últimos séculos é, sem dúvida, o processo da denominada globalização. Por um lado, os contactos entre as diversas partes do globo, impulsionados a partir da Renascença e tornados banais durante todo o século passado – sobretudo através das tecnologias de comunicação – conseguiram instaurar relações de interdependência entre todos os seres humanos, tornando visível o facto de todos pertencerem à mesma condição fundamental, irmanados numa solidariedade universal. Por outro lado, contudo, essa interacção planetária potenciou o desenvolvimento de poderes despersonalizantes, que anulam as identidades particulares e que desrespeitam a dignidade fundamental de cada ser humano concreto. Assim, a inserção dos nossos contemporâneos no processo de globalização, fazendo com que este permita uma correcta articulação entre o universal e o particular é, sem dúvida, um dos desafios sócio-culturais mais importantes da época que vivemos.
A transmissão da fé nessas circunstâncias deverá, por um lado, saber situar-se na ambivalência dessa situação, tomando consciência da sua orientação mundializante e não apenas particularista; mas, por outro lado, terá que tomar cada vez mais consciência do dever que a vivência pragmática da fé cristã tem de dar um contributo positivo para um melhor equilíbrio neste processo problemático.
Na sua própria tradição, o cristianismo encontra a fonte do correcto equilíbrio entre universalidade e particularidade, dado que radica precisamente nessa relação. A Boa Nova de Jesus Cristo assenta na relação a uma pessoa particular, numa história particular, através de mediações particulares; mas, do mesmo modo, não se trata de uma Boa Nova particularista, só para uma etnia, ou só para um continente, ou só para uma classe social: é uma proposta universal de salvação que não conhece fronteiras de qualquer género.

Assim sendo, a universalidade da fé cristã não se identifica com a totalidade da manipulação de todos os recantos do globo nem com o totalitarismo da uniformidade pura. É, antes, a universalidade do relacionamento entre particularidades reais, únicas e irrepetíveis. Assim também a evangelização será regionalizada no concreto, por isso sempre plural e diversificada, caso a caso; mas, ao mesmo tempo, de dimensão universal, dirigida a todos os seres humanos sem excepção, contribuindo por essa via para fomentar a unificação planetária, para além dos horizontes estreitos dos particularismos culturais, e superando talvez o desencanto pós-moderno perante as promessas irrealizáveis da economia e da cultura mundializada.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – VII

Conflitos da fé, arte e ciência

Uma das marcas mais «traumáticas» da relação entre a fé cristã e a cultura, ao longo dos últimos três ou quatro séculos é, sem dúvida, o conflito entre fé, ciência e arte. O momento cultural actual, após a superação de posições extremas, quer da ciência, quer da arte, quer da própria Igreja, parece propício à recuperação do diálogo entre essas actividades humanas fundamentais.
A ciência, após o abandono das suas pretensões totalizantes e absolutas, encontra-se cada vez mais aberta à sua integração numa perspectiva mais abrangente da realidade, sem perder a sua legítima autonomia de funcionamento. A arte, após um percurso sinuoso pela destruição e metamorfose de toda a herança cultural, está cada vez mais consciente da sua relação com essa tradição, assim como com a dimensão religiosa do ser humano, percorrendo cada vez mais caminhos explícitos de transcendência. Por seu turno, a Igreja assumiu claramente o facto de que a fé cristã não precisa de entrar em conflito directo com essas actividades, naquilo em que a respectiva autonomia o justifica. O respeito por essa autonomia não contradiz a atitude crente, pois trata-se de dimensões diferentes da actividade humana.
Por outro lado, cada vez mais a fé cristã se torna consciente de que não pode ausentar-se da relação quotidiana com essas – e outras – actividades, uma vez que elas fazem parte da vida dos seres humanos e esta não pode separar-se da dimensão religiosa ou da atitude crente. Um dos grandes desafios da cultura actual à transmissão da fé consiste, precisamente, na necessidade de relacionar de modo fértil a vivência da fé com essas realizações culturais que são, sem dúvida, das mais profundas que uma cultura pode conhecer, a ponto de serem, muitas vezes, identificadas com a própria cultura. A transmissão da fé terá que, por um lado, aprender com o contributo de todos os humanos que se dedicam a essas actividades e, por outro lado, deverá orientá-las para a sua verdadeira finalidade, colocando-as ao serviço da humanização de todos os seres humanos e, desse modo, ao serviço da construção do Reino de Deus.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – V

Humanismo

É inquestionável que uma das marcas da cultura moderna – que, apesar de todas as crises, continua a determinar o horizonte dos nossos valores – é a sua orientação humanista. Mesmo que de formas muitas vezes ambíguas e até desmesuradas, a herança cultural do judaísmo e do cristianismo mede-se sobretudo pela centralidade da pessoa humana, sujeito de dignidade fundamental, anterior e superior a todas as ideologias, sistemas e instituições.
O conteúdo da fé cristã encontra aí uma das mais excelsas aplicações sócio-culturais. Tendo em conta que essa dignidade lhe vem do próprio Deus e que só com ele a pode sustentar e manter, a transmissão da fé deverá tornar claro que o caminho da Igreja – porque caminho de Deus – é o próprio ser humano, na sua mais fundamental humanidade. Por isso, o antropocentrismo não contradiz o teocentrismo; ambos se pressupõem mutuamente, segundo a mais genuína concepção bíblica de Deus e do ser humano.

Mas o antropocentrismo bíblico não é individualista nem egoísta. A centralidade do ser humano é a centralidade do outro ser humano e não do si mesmo de cada um. Por isso, o humanismo da fé cristã é o humanismo da completa doação ao outro, sobretudo àquele que mais desfavorecido é pelas circunstâncias sócio-existenciais. A vivência da fé cristã implica, por isso, doação da vida aos outros, quer no apoio concreto a situações existencialmente difíceis, quer na denúncia profética da desumanização das relações, no combate directo contra a pobreza, na promoção da justiça e da paz, na defesa da vida de todos os que não a podem defender por si mesmos, etc.
Sabemos, contudo, que a nossa cultura actual não é univocamente humanista e que mesmo os movimentos que se pretendem humanistas o são, por vezes, de modo muito ambíguo. O processo de expansão dos grupos económicos contemporâneos aponta para uma clara tendência de subjugação das pessoas humanas concretas aos interesses de sistemas anónimos deslocalizados e despersonalizados.

Esse contexto redobra a exigência e a pertinência de uma transmissão da fé personalizada, com a pessoa humana no centro, quer enquanto receptor da Palavra, quer enquanto conteúdo vivo da própria fé, que exige compromisso pelo destino dos outros.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – IV

Imanência

Uma das características da cultura actual, naquilo em que prolonga a herança da modernidade ocidental – esta reflexão está situada no Ocidente e não seria assim no Oriente –, é sem dúvida a tendência para a afirmação da positividade do mundo imanente. As realidades terrenas, mesmo na sua materialidade própria e nos processos internos de interacção, foram sendo progressivamente assumidas e valorizadas na sua autonomia própria. É certo que essa perspectiva possui profundas raízes bíblicas, mas não é menos certo que a história do cristianismo ocidental muitas vezes se desviou dessa compreensão do real, favorecendo uma leitura «gnóstica» do mundo, com base numa ambígua concepção de transcendência e da sua relação com a imanência. Assim sendo, a tendência «mundanizante» da modernidade pode ser lida como possível recuperação do espírito bíblico, sobretudo do espírito cristão da Incarnação.

Nos últimos séculos da história ocidental, uma cultura predominante e quase exclusivamente espiritual e orientada para um outro mundo, foi dando lugar a uma cultura incarnada, terrena, concentrada nos processos biológicos, sociais e pessoais que acompanham o real quotidiano dos seres humanos. No seu extremo, essa posição conduziu mesmo à contraposição da imanência à transcendência, pretendendo como falsa toda a referência a esta. Mas essa versão radical não foi a única nem invalida os elementos positivos da valorização do mundo concreto, que constitui a vivência dos nossos contemporâneos.
Essa valorização foi acolhida, progressivamente, pela própria Igreja, revendo nela a sua mais profunda e antiga tradição bíblica, cujas matrizes criacional e incarnacional não permitem a condenação do mundo, enquanto tal. A ambiguidade desse mundo e mesmo o problema do mal, embora não permitam uma aceitação total do actual estado das coisas, tal como se nos apresentam, não pode contudo conduzir a uma fuga deste e à anulação da sua pertinência, mesmo salvífica. A caminho da perfeição, a criação e a humanidade sofre, mas já caminha no processo de salvação. O reino de Deus já cresce cada dia e o Espírito continua a suscitar nos corações sentimentos de liberdade e de amor.
Neste contexto cultural – por razões teológicas e não apenas de «adaptação» – torna-se especialmente pertinente praticar uma transmissão da fé de forma incarnada, que leve a sério as realidades mundanas em que vivemos, mesmo nos casos em que é necessário criticá-las profeticamente. A fé não pode ser reduzida a mera atitude espiritual. De igual modo, a sua transmissão terá que assumir configuração pragmática, quotidiana e localizada, orientando-se para o compromisso incarnado de quem a acolhe.

Ora, uma das ambiguidades da nossa cultura, que acompanha o crepúsculo da modernidade, reside precisamente nas diversas formas de recuperação do gnosticismo, que podem conduzir à reinstauração de uma vivência desincarnada do real. Quer no âmbito do movimento neo-religioso sectário de teor «New Age», quer no interior da actual cultura mediático-virtual, a dinâmica da incarnação corre sérios riscos, podendo os nossos contemporâneos ser permanentemente conduzidos para um mundo de ilusão, onde facilmente serão manipulados.
Perante esse perigo real, assume redobrada importância um modelo de transmissão da fé incarnado na história concreta dos interlocutores. Privilegiará as relações inter-pessoais directas, num leque de tempos e espaços reais, enquadrado em instituições locais e próximas – das quais, uma das mais eficazes é ainda a comunidade paroquial, mesmo se desmembrada em muitos grupos mais pequenos, porque mais concretos e personalizados.

A localização e a incarnação – e a consequente glocalização digital –, no processo de transmissão da fé, poderão ainda contribuir para enfrentar o crescente processo de indiferença política dos nossos contemporâneos, sobretudo dos mais jovens. A aprendizagem pragmática da participação e do compromisso sócio-político, a nível de pequenos grupos ou de instituições locais será um dos caminhos mais eficazes para experimentar a importância – enquanto direito e dever – da actividade política, assim como para manifestar claramente a dimensão sócio-política do próprio conteúdo da fé cristã (Cf. LF).

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – III

Pós-modernidade

Não estaríamos a ser realistas se reduzíssemos a cultura contemporânea a essa potenciação do espírito crítico e científico. O denominado espírito «pós-moderno» coloca-nos perante o irrecusável facto de ter entrado em crise a exclusividade do modelo científico-racional, na percepção e vivência do real. Entrou em crise, em realidade, a «crença» e o entusiasmo por esse modelo, de tal modo que a maioria dos contemporâneos se tornou indiferente às suas conclusões, que ignora na maioria. Daí resulta uma relação com o cristianismo que superou já o estádio propriamente crítico, caindo sobretudo em indiferença completa.


Não ignorando, nem descurando o facto de que uma transmissão da fé segundo modelos conceptuais, sistemáticos e lógicos favorece a construção do espírito crítico e da capacidade de argumentação em favor da verdade do conteúdo cristão – o que ajudará à consolidação da convicção crente, mesmo em relação às próprias dúvidas pessoais – o certo é que se torna cada vez mais necessário não esquecer outros caminhos de transmissão, que conheceram longas tradições e que o espírito científico-racional moderno pretendeu suplantar. Será urgente recuperar modelos narrativos, dramáticos, poéticos e simbólicos de transmissão da fé, que explorem registos da linguagem mais existenciais e performativos e que, por essa via, possam empenhar de forma mais englobante as diversas dimensões da pessoa humana, à boa maneira da mais ancestral tradição bíblica e patrística.

Esse poderá ser, por um lado, o caminho mais indicado para desbloquear a indiferença e o desinteresse de muitos dos nossos contemporâneos, em relação ao conteúdo crente; por outro lado, esse modelo permitirá que o conteúdo seja compreendido de forma mais abrangente, evitando todo o tipo de redução intelectualista. Assim, a transmissão da fé, em dias de hoje, deverá optar preferencialmente por um modelo catecumenal, que integre as dimensões doutrinal, vivencial e celebrativa da fé, pois é aí que encontram eco também todas as dimensões do próprio ser humano, a quem se dirige a Palavra salvífica.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – II

Mentalidade científica

Em segundo lugar, poderíamos salientar, dos elementos do nosso contexto cultural, o facto de se ter alargado significativamente – pelo menos do ponto de vista quantitativo – a formação científica e intelectual dos habitantes do mundo ocidental. A denominada «democratização» do ensino permitiu o acesso de todos a uma formação básica e mesmo superior, o que altera fortemente o modo de ser do ouvinte da Palavra que evangeliza.

Para além disso, sobretudo no nosso mundo ocidental, a formação intelectual é predominantemente uma formação crítica, cientifista, de modo especial em relação à atitude religiosa. Se é certo que essa crítica originou, frequentemente, conflitos indesejáveis, não é menos certo que também deu um contributo positivo para o aprofundamento do conteúdo da fé cristã e da respectiva validade, sem o imunizar numa comunidade fechada ao resto do mundo.
Os modelos de transmissão da fé, na actualidade cultural, não poderão ignorar esta dimensão crítica, presente nos ouvintes e mesmo a ser fomentada pela própria fé. Aliás, inserindo-se na tradição profética, o conteúdo da fé cristã é sempre um conteúdo crítico, mesmo relativamente a si próprio, às instituições que o mediatizam e às pessoas que o vivem. Esta atitude promoverá uma maior visibilidade cristã para aqueles que estão à busca de sentido, potenciais ouvintes da Palavra.
Assim sendo, a racionalidade teológica, em diálogo fecundo com outras racionalidades científicas, deverá acompanhar cada vez mais o processo de transmissão da fé, sob pena de transformarmos o seu conteúdo num conjunto de banalidades sem profundidade humana e sem capacidade de debate público e intelectualmente honesto.

A Igreja contemporânea nunca poderá esquecer que, mesmo sem falsos exclusivismos e intelectualismos, a formação teológica dos fiéis cristãos constitui uma prioridade para a construção sólida do futuro, na transmissão da fé às gerações vindouras. O maior perigo para a falsificação da fé ou a derrapagem para a indiferença não é – nunca o foi, mas hoje menos do que nunca – o aprofundamento crítico, mas a sua ausência.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – I

As culturas contemporâneas – na fisionomia que especificamente vão assumindo no chamado «mundo ocidental», de influência predominantemente europeia – levantam, como em qualquer outra época ou parte do mundo, desafios específicos à permanente tarefa eclesial da transmissão da fé e, também, à formação cristã, enquanto anúncio da Boa Nova salvífica de Jesus Cristo às gerações futuras. Desses desafios, podem salientar-se alguns que, de certo modo, irão ter mais incidência no quotidiano da missão da Igreja.

Pluralidade de vivências

Em primeiro lugar, a nossa constelação cultural está profundamente marcada pela percepção da pluralidade das vivências culturais dos humanos, as quais abundantemente se diferenciam no espaço e no tempo. Mesmo que se possa discutir se o nosso espaço cultural ocidental, em si mesmo, é um espaço culturalmente plural, o certo é que está habitado claramente pela consciência, difundida entre os nossos contemporâneos, de que existem distintas visões do mundo e formas de nele estar, sobretudo se pensarmos em termos globais.

Nesse contexto, o cristianismo surge, frequentemente, como uma dessas visões ou perspectivas, entre muitas outras possíveis. Para além disso, é frequente considerar-se que a visão cristã do mundo e do ser humano marcou sobretudo a cultura ocidental-europeia, distinguindo-a, assim, de outras matrizes culturais muito diferentes – como a árabe, a oriental, a africana, etc. A essas distinções juntam-se conotações e ligações mais ou menos religiosas, que contribuem para a construção (pelo menos mental) de mundos religioso-culturais pretensamente bem definidos: cristão, muçulmano, hindu, budista, animista, etc.
Nesse contexto de predominante leitura da nossa actual realidade, o anúncio da Boa Nova cristã apresenta-se, por vezes, como proposta alternativa, contraproposta ou mesmo denúncia profética e aguerrida em relação a outra matrizes culturais – de certo modo, em clara analogia com a forma como a Igreja dos primeiros séculos enfrentou o mundo greco-romano, mesmo se já então as posições fossem muito variadas e diferenciadas.
Esta perspectiva de «choque de culturas», que contém sempre algo de «bélico» ou mesmo apocalíptico e que pode alinhar por uma espécie de «conflito de civilizações», mesmo no interior do nosso espaço cultural, precisa de ser analisada com cuidado – não propriamente com medo, mas com demorada atenção. De facto, não se pode excluir de todo o facto de que a Boa Nova evangélica constitui, em muitos casos, alternativa profética em relação a outras perspectivas religiosas e culturais, quando essas perspectivas negam ou contradizem frontalmente o núcleo do conteúdo da fé cristã, contradizendo na prática a correspondente noção de ser humano. Assim, transmitir a fé cristã num mundo em que abundam conteúdos e propostas, da mais diversificada origem e com as mais diversificadas consequências antropológicas e sociais, implica clareza e coragem de enfrentar o que deve ser enfrentado, numa «cruzada» que tenha noção de que a ambiguidade da nossa situação não coloca de parte a eventual exigência de denunciar situações que, em perspectiva cristã, anulam a própria humanidade do ser humano.


De qualquer modo, não se pode assumir essa posição de conflito apocalíptico com outras culturas como total e radicalmente exclusiva. Já os cristãos dos primeiros séculos nos ensinaram que as «sementes do verbo» se encontram espalhadas pelo mundo, por isso também noutras tradições culturais e religiosas. Assim, o confronto com outras propostas, não abandonando a coragem da denúncia e a clareza das diferenças, deverá também estar aberto à proximidade das semelhanças e dos elementos que, em comum, nos podem conduzir à casa do mesmo Pai. Assim sendo, a transmissão da fé numa cultura da diferença terá que aprender a lidar com essa diferença, sem diluir a identidade própria.

Modelos de formação cristã e culturas contemporâneas – VI

Globalização

Um dos elementos mais marcantes e também mais ambivalentes das transformações culturais dos últimos séculos é, sem dúvida, o processo da denominada globalização. Por um lado, os contactos entre as diversas partes do globo, impulsionados a partir da Renascença e tornados banais durante todo o século passado – sobretudo através das tecnologias de comunicação – conseguiram instaurar relações de interdependência entre todos os seres humanos, tornando visível o facto de todos pertencerem à mesma condição fundamental, irmanados numa solidariedade universal. Por outro lado, contudo, essa interacção planetária potenciou o desenvolvimento de poderes despersonalizantes, que anulam as identidades particulares e que desrespeitam a dignidade fundamental de cada ser humano concreto. Assim, a inserção dos nossos contemporâneos no processo de globalização, fazendo com que este permita uma correcta articulação entre o universal e o particular é, sem dúvida, um dos desafios sócio-culturais mais importantes da época que vivemos.
A transmissão da fé nessas circunstâncias deverá, por um lado, saber situar-se na ambivalência dessa situação, tomando consciência da sua orientação mundializante e não apenas particularista; mas, por outro lado, terá que tomar cada vez mais consciência do dever que a vivência pragmática da fé cristã tem de dar um contributo positivo para um melhor equilíbrio neste processo problemático.
Na sua própria tradição, o cristianismo encontra a fonte do correcto equilíbrio entre universalidade e particularidade, dado que radica precisamente nessa relação. A Boa Nova de Jesus Cristo assenta na relação a uma pessoa particular, numa história particular, através de mediações particulares; mas, do mesmo modo, não se trata de uma Boa Nova particularista, só para uma etnia, ou só para um continente, ou só para uma classe social: é uma proposta universal de salvação que não conhece fronteiras de qualquer género.

Assim sendo, a universalidade da fé cristã não se identifica com a totalidade da manipulação de todos os recantos do globo nem com o totalitarismo da uniformidade pura. É, antes, a universalidade do relacionamento entre particularidades reais, únicas e irrepetíveis. Assim também a evangelização será regionalizada no concreto, por isso sempre plural e diversificada, caso a caso; mas, ao mesmo tempo, de dimensão universal, dirigida a todos os seres humanos sem excepção, contribuindo por essa via para fomentar a unificação planetária, para além dos horizontes estreitos dos particularismos culturais, e superando talvez o desencanto pós-moderno perante as promessas irrealizáveis da economia e da cultura mundializada.