Permitam-me começar por uma palavra que, talvez por parecer demasiado evidente, corre o risco de já não ser verdadeiramente considerada: transparência. Hoje, invocamo-la quase como um critério absoluto de legitimidade. Tudo deve ser transparente: as instituições, os procedimentos, as decisões, as relações, os discursos, até os gestos mais íntimos da vida pessoal e comunitária.

Véu transparente, de Giuseppe Sanmartino
Mas talvez seja precisamente aqui que começa a dificuldade. Nem toda a transparência é verdadeira claridade. Há formas de exposição que não iluminam, apenas devassam; há exigências de visibilidade que não libertam, apenas controlam; há discursos sobre a verdade que, em vez de servirem a confiança, alimentam a suspeita permanente.
Quando a teologia, como exercício de refletir sobre a fé, entra neste diálogo, não o faz para diminuir a exigência de verdade ou de responsabilidade. Pelo contrário, fá-lo para impedir que a transparência seja empobrecida e convertida num simples mecanismo de vigilância. A fé recorda-nos que a pessoa humana não é integralmente redutível ao que se mostra, que o mistério não é sinónimo de ocultação e que a confiança não nasce da devassa, mas de uma verdade habitada com responsabilidade, pudor e cuidado.
É neste horizonte que gostaria de situar esta intervenção: pensar a transparência não apenas como requisito institucional, mas como questão antropológica, ética e relacional. Uma questão que toca o modo como nos expomos, como respondemos uns pelos outros e como deixamos que a verdade se torne, não instrumento de domínio, mas lugar de encontro.
1. Para além da ditadura da visibilidade
Antes de formular positivamente uma teologia da transparência, importa reconhecer a ambiguidade que hoje atravessa este conceito. A transparência tornou-se uma palavra moralmente prestigiada, associada à verdade, à responsabilidade e à confiança pública. Contudo, quando absolutizada, pode converter-se no seu contrário: não em caminho de verdade, mas em mecanismo de exposição; não em condição de encontro, mas em dispositivo de controlo. É esta ambivalência que exige uma leitura crítica, capaz de distinguir a transparência que humaniza da visibilidade que devassa.
1.1. Para além da ditadura da visibilidade
A ideia de que a transparência constituiria o apogeu da democracia e da ética contemporâneas requer um escrutínio teológico-político rigoroso. O que hoje frequentemente se apresenta como claridade libertadora assume, muitas vezes, a forma de uma exigência de visibilidade total, próxima das estruturas de vigilância mais invasivas da modernidade. Byung-Chul Han, em A Sociedade da Transparência (Han, 2013), mostra que a transparência absoluta não é necessariamente veículo de verdade, mas antes um imperativo sistémico que elimina a alteridade: ao tornar tudo devassável, reduz o espaço do reservado, da interioridade e da liberdade.
É neste horizonte que se desenha o panótico digital. Diferentemente do modelo clássico de Bentham ou de Foucault, no qual um centro de poder visível vigia os corpos, a configuração contemporânea leva os próprios sujeitos a exporem-se voluntariamente. A intimidade converte-se em mercadoria e o quotidiano em dados escrutináveis. A consequência antropológica é decisiva: a confiança, que supõe sempre uma relação com o não-saber, é substituída pelo controlo. Como afirma Han, «a transparência e a confiança excluem-se mutuamente» (Han, 2013, p. 14), de tal modo que, numa cultura movida pela suspeita permanente, confiar passa a ser percecionado como ingenuidade ou negligência.
A partir da teologia, esta erosão da privacidade revela-se particularmente grave, porque desprotege a dimensão do sagrado e a integridade da pessoa humana. Paul Ricoeur, em O Conflito das Interpretações (Ricoeur, 1989), alertou para a necessidade de defender o sujeito perante as “hermenêuticas da suspeita”, quando estas pretendem tudo devassar e desmascarar em nome de uma pretensa verdade. Na cultura comunicacional contemporânea, tal dinâmica aproxima-se daquilo que, a partir de Giorgio Agamben, poderíamos designar como um estado de exceção permanente da imagem (Agamben, 2008): a recusa em ser visível torna-se suspeita, e aquilo que não é registado pela lente ou processado pelo algoritmo é remetido para a inexistência ou para a culpa presumida.
1.2. A Teologia da Transparência
Uma teologia da transparência exige, por isso, a distinção entre duas matrizes opostas: a “transparência-controlo”, de natureza burocrática e panótica, e a “transparência-vulnerabilidade”, de raiz evangélica e relacional. A primeira serve a eficácia, a segurança do sistema e a conformidade normativa; a segunda procura a integridade da pessoa, a verdade do encontro e a qualidade do cuidado.
Se a cultura contemporânea tende a interpretar a vulnerabilidade como falha a corrigir por procedimentos de compliance, a teologia inverte esta lógica. Jean-Luc Marion, ao refletir sobre a fenomenologia da doação e o “fenómeno saturado”, permite compreender que o excesso de visibilidade pode tornar-se ofuscante e objetificante — o ídolo —, ao passo que a transparência que abre à comunhão — o ícone — respeita a alteridade e o mistério do outro (Marion, 2002). A transparência da fé é, portanto, uma transparência icónica: não devassa para controlar, mas torna-se translúcida para permitir a mediação da graça.
Esta perspetiva cruza-se com a reflexão ética de Judith Butler, para quem a vulnerabilidade não é mera carência subjetiva, mas condição de exposição que torna possível a relação (Butler, 2004, pp. 139–142). Por isso, na práxis institucional e pastoral, a transparência não pode reduzir-se à autoproteção da instituição ou à mitigação de riscos jurídicos. Quando é apenas burocrática, transforma o sujeito em objeto auditável. Quando nasce do cuidado, cria condições para que a pessoa possa dizer a verdade da sua existência — com as suas feridas, contradições e opacidades — sem temor do estigma ou da punição corretiva.
Esta viragem encontra fundamento no critério da hospitalidade, tal como Christoph Theobald o desenvolve em O cristianismo como Estilo (2007). A santidade quotidiana não se manifesta numa exposição exaustiva e devassante de factos, mas numa “bondade hospitaleira” que se torna acessível na medida em que promove o bem comum. Ser transparente não significa, portanto, abolir a reserva que protege a integridade do outro, mas recusar a ocultação daquilo que é vital para o cuidado, a justiça e a proteção dos mais vulneráveis.
O específico deste paradigma reside na afirmação da transparência-vulnerabilidade como antídoto antropológico perante a desumanização do panótico digital. Enquanto a cultura da visibilidade total produz uniformidade, medo e suspeita, a transparência da fé propõe uma via de comunhão fundada no reconhecimento do mistério humano. Ao assumir a vulnerabilidade como lugar de revelação, deixa-se de vigiar perfis para acolher pessoas, substituindo a ditadura do visível pela profundidade de um encontro que respeita a alteridade e edifica o corpo social.
2. A fé como inteligibilidade pública
Depois de reconhecer a ambiguidade contemporânea da transparência, importa agora deslocar a reflexão para o seu núcleo propriamente teológico. A transparência, quando pensada a partir da fé, não nasce da suspeita, nem se reduz a um mecanismo defensivo de fiscalização. Nasce, antes, da própria racionalidade interna da Revelação, isto é, da convicção de que a fé possui uma inteligibilidade, uma gramática e uma responsabilidade pública. Por isso, dar razões da fé não significa submeter o mistério à lógica da evidência total; é antes mostrar que a experiência crente não se refugia na obscuridade, não abdica da razão e não se exime à verdade das suas consequências históricas, comunitárias e institucionais.
2.1. O Imperativo da Inteligibilidade: O “dar razões” da fé
Para começar esta segunda parte, importa ter presente que não nos podemos rever num conceito de fé entendido como refúgio do foro íntimo, imune ao escrutínio público. A racionalidade da fé obriga a dar conta de si.
Já na Sagrada Escritura, na Primeira Carta de Pedro, no terceiro capítulo, se pode ler:
Quem vos poderá fazer mal, se fordes zelosos na prática do bem? Mas se tiverdes de sofrer pela justiça, sereis felizes! Não tenhais medo deles nem vos deixeis perturbar, mas santificai o Senhor, o Cristo, em vossos corações, e estai sempre prontos para responder a todo aquele que vos peça razões da esperança que está em vós. No entanto, fazei-o sempre com mansidão e respeito, conservando a consciência tranquila
A fé não é um salto cego, possui um Logos. A transparência, teologicamente falando, é precisamente este dever de inteligibilidade. É a capacidade de expor os processos de decisão, as motivações do agir e os critérios que fundamentam a práxis.
2.1.1. Tradição eclesial
Se recuperarmos a intuição basilar de Clemente de Alexandria (150-215), de modo particular no tratado O Pedagogo (San Clemente de Alejandría, 1988), compreendemos que o Verbo não se limita a comunicar um corpo de verdades dogmáticas ou abstratas. Ele assume a função de educador prático da humanidade. Para Clemente de Alexandria, o Logos pedagogo molda o carácter, ordena os costumes e confere uma racionalidade intrínseca ao agir do crente. Por conseguinte, a fé obedece a uma lógica luminosa, a um princípio estruturante que afasta, por definição, a obscuridade, a arbitrariedade e a impulsividade. Onde o Logos educa, a ação humana torna-se explicável e razoável.
Esta matriz tem consequências operativas imediatas para o governo e para a vida comunitária. Exige que as instituições recusem o refúgio numa aura de mistério insondável como pretexto para conservar a opacidade orgânica. A pedagogia do Logos atua trazendo à luz as intenções mais íntimas, o que significa que o dever de transparência não é uma mera cedência aos modelos de gestão corporativa contemporânea, mas uma exigência metodológica e profundamente teológica. Prestar contas — dar razão das escolhas feitas — é traduzir o Logos em dispositivos concretos de escrutínio e partilha.
Quando uma estrutura, pastoral ou de outra natureza, oculta os seus critérios de discernimento, subtrai-se voluntariamente à pedagogia da verdade. A inteligibilidade da práxis requer processos abertos, nos quais a racionalidade das decisões possa ser escutada, compreendida e participada pela comunidade. Na escola do Logos, expor as motivações e os métodos do agir constitui o antídoto mais rigoroso contra as derivas do poder e o fechamento autoritário, garantindo que a reflexão e o cuidado permaneçam enraizados num compromisso inegociável com a clareza.
Por seu turno, a encíclica Fides et Ratio (Ioannes Paulus II, 1999), promulgada por João Paulo II a 14 de setembro de 1998, constitui um dispositivo crítico incontornável para o discernimento da cultura contemporânea e da modernidade tardia. No final do século XX, o horizonte intelectual encontrava-se já profundamente marcado pelo declínio das grandes narrativas, cedendo lugar à proliferação do pensamento débil, do relativismo e das diversas formas de niilismo. Perante uma filosofia que, de modo resignado, abdicava da sua exigência metafísica e da busca de uma verdade universal, a encíclica surge como um ato de audácia magisterial, exigindo a reabilitação da vocação inquiridora da razão.
O diagnóstico de João Paulo II identifica a separação radical entre o conhecimento natural e a revelação como a raiz de uma dupla patologia que enferma o pensamento moderno: o racionalismo e o fideísmo. A célebre metáfora de abertura, que descreve a fé e a razão como “as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”, estabelece um rigoroso critério metodológico e antropológico. Uma razão que se fecha à transcendência asfixia-se na pura instrumentalidade; em contrapartida, uma fé desvinculada da racionalidade degenera em mero sentimento ou superstição, tornando-se incapaz de dialogar com a complexidade do real e de fundamentar uma ação eclesial madura.
Sob o prisma de uma visão teológica atenta aos modos de habitar o mundo, a Fides et Ratio recusa o confinamento da fé a um estatuto puramente especulativo, afirmando-se como um referencial eminentemente operativo. Num tempo em que a aceleração tecnológica e a superficialidade do ambiente digital fragmentam frequentemente a atenção e pulverizam os critérios de verdade, a encíclica convoca as instituições eclesiais a um renovado labor sapiencial.
A exigência inscrita no texto é clara: a reflexão intelectual não tem um fim em si mesma. Ela exige tradução em processos, critérios e dispositivos formativos capazes de restituir aos humanos a capacidade da interrogação última. Trata-se, no fundo, de uma robusta obra de cuidado espiritual, garantindo que a fé viva de uma comunidade assente numa inteligência lúcida, capaz de resistir à banalização da existência e ancorada na busca comum pelo sentido.
A encíclica Fides et Ratio (João Paulo II, 1998) diz expressamente:
A fé, privada da razão, pôs em maior evidência o sentimento e a experiência, correndo o risco de deixar de ser uma proposta universal. É ilusório pensar que, tendo pela frente uma razão débil, a fé goze de maior incidência; pelo contrário, cai no grave perigo de ser reduzida a um mito ou superstição (§48).
2.1.2. Teologia
O teólogo alemão Johann Baptist Metz ajuda-nos a perceber que a tentação contemporânea, amiúde caucionada por um certo paradigma secularista restritivo, consiste em remeter a experiência crente exclusivamente para a penumbra do foro íntimo. Assiste-se, na cultura atual, a uma progressiva desidratação do compromisso cristão, que se procura reduzir a mero dispositivo terapêutico de bem-estar emocional ou a reduto espiritual inofensivo. Quando a religião aceita — ou, pior ainda, promove — este confinamento à esfera estritamente privada, torna-se irremediavelmente opaca. Subtrai-se não apenas ao diálogo cultural e científico, mas também ao escrutínio ético, social e político.
Ora, a racionalidade teológica — a exigência de dar razões — rejeita liminarmente este exílio voluntário. Uma fé que se recusa a dar conta de si mesma na praça pública, que se isenta de justificar as suas motivações operativas e os seus critérios de governação, não se torna por isso mais pura; torna-se neutralizada e inoperante. A transparência não é imposta como corpo estranho pelo Estado de Direito ou pelas grelhas da auditoria civil. Ela constitui, antes, uma condição inegociável para que a comunidade crente mantenha a sua integridade.
Esta recusa de um cristianismo enclausurado no foro íntimo encontra eco decisivo na teologia política de Johann Baptist Metz. Na sua obra Fé na História e na Sociedade (Metz, 1979, pp. 45–68, 183ss), Metz denuncia aquilo a que chama a “privatização da fé” e a patologia da “religião burguesa”. Quando a experiência religiosa se retira para a segurança da vida privada, imune ao conflito da praça pública, atraiçoa a sua vocação histórica e foge à prestação de contas. Para Metz, a fé cristã é memoria passionis — memória incómoda das vítimas da história —, que exige visibilidade e compromisso no espaço público (Metz, 2007). A transparência, lida a partir desta matriz, é a recusa frontal de uma fé burguesa e assética. Uma fé que não se expõe ao escrutínio da sociedade é uma fé que abdicou da sua força transformadora.
Dando um passo mais, compreendemos que é próprio e necessário dos crentes dar razões da sua fé, a partir da epistemologia proposta por David Tracy, que desmonta a premissa de que os crentes habitariam uma linguagem esotérica e insindicável. Como o autor demonstra em A Imaginação Analógica (Tracy, 1981), a teologia genuína não profere discursos para o vazio, mas dirige-se, intrínseca e simultaneamente, a três públicos distintos: a academia, a Igreja e a sociedade em geral. Para que a fé seja audível e operativa no seio de uma sociedade secularizada — interpelando diretamente as diferentes gramáticas presentes no espaço público —, tem de recusar o refúgio estéril dos argumentos de autoridade ou de um jargão hermético, assumindo a exigência inegociável de apresentar critérios públicos de verdade. A transparência institucional e argumentativa assume-se, assim, como verdadeira condição de possibilidade epistemológica e operativa para que a fé exerça a sua relevância e inteligibilidade na praça pública.
A passagem do mero imperativo da inteligibilidade — o dar razões — para as suas consequências operativas na governação das instituições encontra o seu vértice conceptual na obra de Christoph Theobald, teólogo alemão radicado em Paris. Ao articular a dogmática com a teologia prática e a sinodalidade, Theobald mostra que a tradução do Logos em processos e dispositivos de escrutínio é uma exigência cristológica. De facto, ao propor o cristianismo enquanto “estilo” (Theobald, 2007, pp. 35–112), recorda-nos que a verdade da fé não reside exclusivamente na justeza dos enunciados que professa, mas no modo concreto como habita o mundo e organiza as suas relações.
Sabendo que o estilo de Jesus de Nazaré é estruturalmente marcado pela ausência de agendas ocultas, pela vulnerabilidade e pela hospitalidade incondicional, as ilações institucionais tornam-se inegociáveis. Todo o modelo de governação eclesial ou pastoral que se alicerce na partilha do discernimento, na corresponsabilidade e na clareza dos seus processos institucionais assume-se, na verdade, como concretização viva do próprio estilo evangélico. Neste enquadramento, a transparência ergue-se como espaço vital onde a fidelidade da comunidade à sua vocação originária se renova continuamente: é precisamente na fecundidade de uma claridade orgânica que a confiança mútua floresce e a gramática do cuidado cristão se pode realizar em plenitude.
2.2. Três conceitos “mal ditos”
Compreender a crise da experiência crente contemporânea não começa, primariamente, na crise de adesão, nem sequer no abandono moral. Começa, antes de mais, numa profunda crise semântica. Assistimos a um esvaziamento letal da linguagem da fé. Quando as palavras perdem a sua ancoragem no real e na grande Tradição da Igreja, a fé fragmenta-se e perde a sua inteligibilidade pública. A meu ver, grande parte da debilidade pastoral e comunitária que hoje enfrentamos radica numa compreensão errada — quando não numa verdadeira caricatura — de três conceitos estruturantes: dogma, misericórdia e indulgência.
O drama contemporâneo reside no facto de estas três categorias terem sido sequestradas por uma leitura marcadamente individualista e subjetiva, amputando-as da sua densidade teológica e da sua capacidade de gerar processos reais de cuidado, conversão e transformação.
2.2.1. O dogma: Da camisa de forças à gramática do sentido
Os nossos contemporâneos, herdeiros de uma suspeita crónica perante a autoridade, tendem a olhar para o dogmacomo uma imposição arbitrária, um espartilho intelectual ou um fóssil anacrónico que limita a liberdade do sujeito. O dogma é, assim, erradamente lido como o fim do pensamento (Rahner, 1964).
Ora, na sua pureza originária, o dogma é precisamente o inverso: é garante da liberdade contra o arbítrio e a efabulação. O dogma não é um cadeado, é uma gramática. Tal como uma língua necessita de regras estruturais para poder gerar poesia e comunicação inteligível, também a fé necessita do dogma para não se dissolver num sentimentalismo efémero ou num misticismo vago. Ele é a memória consolidada da comunidade crente no seu encontro histórico com o Logos.
Num tempo de pós-verdade e de narrativas líquidas, o dogma oferece um solo firme, um critério de discernimento que protege o mistério de Deus das nossas contínuas manipulações projetivas. Assumir o dogma não significa abdicar da liberdade de pensar; significa, antes, aceitar pensar a partir de uma herança provada pelo tempo e pela comunhão eclesial. Como o próprio Lindbeck clarifica com rigor conceptual, nesta perspetiva, a função basilar do dogma afirma-se no seu «uso, não como símbolos expressivos ou reivindicações de verdade, mas como regras de discurso, atitude e ação, dotadas de autoridade comunitária» (Lindbeck, 2009, p. 18).
2.2.2. A Misericórdia: Do laxismo afetivo à força transformadora
Se o dogma sofre por excesso de rigidez na perceção comum, a misericórdia padece do mal oposto: foi reduzida a um “xarope terapêutico”, a uma mera tolerância simpática que exige pouco e desculpa tudo. Para muitos cristãos, a misericórdia divina tornou-se sinónimo de uma amnistia automática, uma espécie de “graça barata” que valida qualquer comportamento sob o manto de um amor incondicional, mas tragicamente inócuo (Bonhoeffer, 2004, La grazia a caro prezzo).
No rigor do léxico teológico, a autêntica misericórdia — na sua matriz etimológica de miseris cor dare, isto é, debruçar o coração sobre a miséria do outro — constitui a mais exigente e operativa de todas as consequências da fé. Ela não ignora a verdade da fratura humana nem suspende a justiça; antes, assume a ferida para a curar. A misericórdia não deixa o sujeito onde o encontrou. É um dispositivo de reabilitação da dignidade e da liberdade responsável. Quando se exerce a misericórdia, não se está a fechar os olhos ao erro, está-se, isso sim, a ativar um processo de conversão e de cuidado intensivo. Confundir misericórdia com a validação acrítica das nossas pulsões é esvaziar o Evangelho da sua força humanizadora (Lecaros, 2021).
2.2.3. A Indulgência: Do comércio espiritual à ecologia da comunhão
De todos os conceitos, a indulgência é talvez o mais maltratado e incompreendido, ainda refém do trauma das controvérsias do século XVI. O imaginário coletivo reduziu-a a um mecanismo burocrático e transacional: uma espécie de contabilidade espiritual onde se adquire um perdão mecânico para evitar as penas do purgatório (Duque, 2000; Rahner, 1963).
Lida a partir de uma sã teologia e da inteligência comunitária, a indulgência é a afirmação suprema da solidariedade relacional no seio do Corpo Místico de Cristo. Ela ensina-nos que o mal que cometemos tem um peso sistémico, deixa feridas em nós e na comunidade, mesmo depois de perdoado. A indulgência é o reconhecimento admirável de que não estamos sozinhos na reparação dessas fraturas (Paulus VI, 1967). Ela assenta no “tesouro da Igreja”: o mérito infinito de Cristo e a vida doada dos santos. Significa que a minha fragilidade é suportada e compensada pela robustez espiritual do outro. É uma verdadeira ecologia do cuidado espiritual: onde a minha capacidade de amar e reparar falha, o amor acumulado pela comunhão dos santos intervém para me completar e curar as raízes do meu pecado.
Em síntese: recuperar o sentido denso destes três conceitos não é um diletantismo académico. É uma urgência operativa. Sem dogma, a fé perde a sua bússola; sem misericórdia autêntica, a fé perde o seu motor transformador; sem indulgência, a fé esquece que a salvação não é um projeto solitário, mas a grande obra coral de um povo a caminho. Um cristianismo que não saiba traduzir estes conceitos em processos concretos de governação e cuidado pastoral condena-se à irrelevância.
Conclusão
Chegados a este ponto, pretendi ajudar a compreender melhor que a transparência, pensada a partir da fé, não se identifica com a exposição total, nem com a devassa da intimidade, nem com a compulsão contemporânea de tornar tudo imediatamente visível, mensurável e auditável. A transparência cristã não nasce da suspeita, mas da verdade; não se alimenta do controlo, mas da confiança; não pretende abolir o mistério, mas impedir que o mistério seja instrumentalizado como refúgio da opacidade, da irresponsabilidade ou do abuso.
Por isso, a fé introduz uma correção decisiva no modo como a cultura contemporânea fala de transparência. Contra a ditadura do visível, recorda que a pessoa humana conserva sempre uma profundidade que não pode ser integralmente capturada pela lente, pelo relatório, pelo algoritmo ou pelo escrutínio público. Mas, contra toda a forma de ocultação indevida, recorda também que nenhuma instituição, sobretudo quando se reclama do Evangelho, pode refugiar-se numa aura de sacralidade para se subtrair ao dever de prestar contas, de explicitar critérios, de partilhar processos e de proteger os mais vulneráveis.
A transparência enquanto valor da fé situa-se, pois, neste equilíbrio exigente entre mistério, verdade e responsabilidade. O mistério preserva a profundidade do humano e de Deus; a verdade impede que a fé se degrade em linguagem ambígua, em poder não escrutinado ou em mera emoção religiosa; a responsabilidade obriga a traduzir a inteligibilidade da fé em práticas concretas de governo, de cuidado, de discernimento e de comunhão.
Neste sentido, dar razões da fé não é um exercício defensivo, nem uma cedência ao tribunal da modernidade. É uma exigência interna ao próprio Logos cristão. Uma fé que não se sabe explicar torna-se opaca; uma fé que não aceita ser interrogada torna-se autorreferencial; uma fé que não se traduz em processos claros de cuidado e de corresponsabilidade perde a sua força evangélica. Pelo contrário, uma fé habitada pela inteligência do Logos torna-se capaz de gerar instituições mais verdadeiras, comunidades mais confiáveis e práticas pastorais mais humanas.
Também por isso se torna urgente recuperar a densidade de palavras tantas vezes “mal ditas”. O dogma não é a negação da liberdade, mas a gramática que impede a fé de se dissolver na arbitrariedade. A misericórdia não é laxismo afetivo, mas força operativa de cura, conversão e reconstrução da dignidade. A indulgência não é contabilidade espiritual, mas expressão admirável da comunhão que sustenta, repara e acompanha a fragilidade de cada um. Quando estes conceitos reencontram a sua espessura teológica, deixam de ser peças de museu ou fórmulas incompreendidas e tornam-se dispositivos vivos de cuidado, de governo e de transformação.
A transparência que a fé propõe não é, portanto, a nudez forçada de uma sociedade sem interioridade. É antes uma claridade habitada: suficientemente luminosa para impedir a mentira, a arbitrariedade e a violência; suficientemente pudorosa para proteger a intimidade, a vulnerabilidade e o mistério.
Esta transparência pode gerar confiança.
Esta transparência pode servir a verdade sem destruir a pessoa.
Esta transparência pode fazer da comunidade crente não um espaço de medo ou de suspeita, mas um lugar onde a verdade se torna cuidado, a responsabilidade se torna comunhão e o mistério se torna fonte de humanidade.
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