Como eu vejo a Catequese em Portugal, hoje


Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão, in Movimento Perpétuo, 1956

Cristão Adulto – VII

Uma espiritualidade saudável

A vida espiritual de um cristão adulto é o que permite uma vida com sentido, que lhe permite responder às questões fundamentais: quem sou?, de onde venho?, para onde vou?, para quê viver? A espiritualidade permite a cada ser humano ver para além de si mesmo, é a capacidade de transcendência, de ter esperança, de abertura ao futuro e consciência da própria finitude.
As necessidades de ordem espiritual emergem da interioridade da pessoa, embora se articulem em cada contexto de acordo coma cultura e as tradições do lugar onde a pessoa se encontra. Num mundo plural, onde nada aparece como absoluto, o cristão deverá ser capaz de zelar pela sua saúde espiritual, para obter uma vida com qualidade.
De seguida descrevo algumas características de uma espiritualidade saudável.

Mistagógica e não moralizante
Diz-se que uma espiritualidade é mistagógica quando introduz ou inicia o indivíduo no mistério de Deus e no mistério da pessoa. Tem por objectivo as experiências da vida espiritual, dom incomparável de Deus. Toda a prática ascética tem como finalidade remover do caminho humano tudo aquilo que impede a comunhão e intimidade pela com Deus.
Por seu turno, uma espiritualidade moralizante vê como principal objectivo evitar as faltas e os pecados. Parte do ideal de perfeição moral e está em permanente perigo de criar escrúpulos de consciência. Um erro, muito comum, é equiparar fé e moral.

Libertadora e não asfixiante
Uma espiritualidade que queira ser de seguimento de Jesus Cristo tem de tender necessariamente para a introdução de cada ser humano numa vivência de Liberdade: a liberdade dos filhos de Deus.
A liberdade interior, que se consegue por uma ascese espiritual, é o único local onde se consegue o encontro profundo com Deus e a libertação dos factores exteriores condicionantes, nomeadamente as expectativas e exigências que são impostas.

Criadora de unidade e não de divisão
Uma espiritualidade saudável implica também que, na relação com os outros, haja sentimentos fraternos. O indivíduo sente-se profundamente unido a cada ser humano: nas suas limitações e fragilidades, e no desejo de salvação.
Quando a «espiritualidade» de um cristão o leva a classificar as pessoas em crentes e não crentes, entre ortodoxos e hereges, entre piedosos e depravados, entre bons e maus, está a dar uma mostra clara de que a sua espiritualidade ainda não atingiu a fase adulta.
Uma espiritualidade de unidade valoriza o sentido das relações interpessoais. A vida espiritual saudável precisa de boas relações humanas, cordiais, relaxadas, nas quais se possa dedicar aos outros o próprio tempo. Amizades autênticas e profundas fertilizam a vida espiritual.

Encarnada e não separada da realidade
Uma espiritualidade sã capacita a pessoa para, diariamente, fazer bem as suas coisas, superando as dificuldades inevitáveis do trabalho e do contexto social.
Um cristão que procura, permanentemente, na sua espiritualidade uma forma de fugir da sua vida diária ainda não atingiu a vida adulta da fé. Pois uma espiritualidade adulta capacita o cristão para dizer sim às suas ocupações diárias que Deus lhe propõe e que ele discerne à luz do Espírito.

Procura Deus e nãos os seus consolos
O cultivar a vida espiritual tem como objectivo ter experiências espirituais. Mas há o perigo de se ficar pelas vivências e sentimentos, que acabam por ser o mais importante, relegando a questão do sentido – e Deus – para um segundo lugar.
As experiências isoladas nada dizem da qualidade da vida espiritual. Esta demonstra-se no caminho do amor dado e recebido nas interligações fraternas, e consequente compromisso, onde Deus está presente e se manifesta.

Global e não parcelar
Uma espiritualidade adulta contempla a totalidade da pessoa, toas as suas dimensões: entendimento e vontade, coração e sentimentos, espírito e corpo, consciente e inconsciente – tudo é abrangido pela vida espiritual.

Humilde e não orgulhosa
A humildade é um excelente critério para discernir se uma vida espiritual é ou não adulta, pois “a humildade nada mais é do que a caminhada para a verdade”(Santa Teresa de Jesus).

Por uma nova catequese

Na Semana da Educação Cristã, um olhar sobre o que pode mudar nesta área

Para quem se compromete em Igreja, ao serviço da Catequese, como consequência da sua opção baptismal tem, na minha opinião, nos novos materiais catequéticos editados pelo Secretariado Nacional da Educação Cristã uma excelente oportunidade para centrar a sua missão naquilo que a catequese deve ser: o ecoar da voz de Deus no coração de cada pessoa que decidiu aderir a Jesus Cristo, no seio da comunidade eclesial.
Estes materiais catequéticos foram vistos, e ainda o são, por muitos agentes da pastoral catequética como uma espécie de tábua de salvação. Ou seja, as dificuldades e obstáculos que todos temos em transmitir ou suscitar a fé ficariam resolvidos com uns novos guias e livro do catequizando, bem elaborados, bem feitos, adaptados aos dias de hoje, recorrendo às novas tecnologias… eu sei lá! Mas como essa solução geral não acontece, porque não podemos pedir a um material o que ele não pode dar, espero que seja uma ocasião para relermos o documento de referência para a catequese em Portugal e onde os nossos Bispos nos dizem o que deve ser a Catequese.
No último capítulo do “Para que Acreditem e Tenham Vida” diz-se claramente que os materiais são insuficientes. Para suscitar e transmitir a fé tem que se ter em conta também: o testemunho da Igreja, que se torna preferencialmente visível no exemplo de vida cristã da família e da comunidade local; o acompanhamento pessoal do percurso de fé de cada catequizando; a capacidade que o catequista tem de comunicar com o catequizando, entre outras. Mas, acima de tudo, a grande certeza que é a comunidade cristã e o catequista, como seu enviado, que dão vida à catequese.

Oportunidade para tomar consciência
Os novos materiais podem ser – e é assim que eu os vejo – um excelente catalisador positivo para desenvolver em cada comunidade uma maior consciência da sua responsabilidade na missão de catequizar, porque a solução última não está nos materiais, nem em qualquer meio material, mas sim na Comunidade que, animada pelo Espírito Santo vive e, por isso, transmite a fé. Pede a alguns dos seus membros que sejamos acompanhantes daqueles que tendo descoberto a beleza de Deus querem aderir a Ele, através de um itinerário de inspiração catecumenal, ajudados pela graça de Deus, pelo apoio da comunidade e acompanhados pessoalmente pelo catequista, rosto e porta-vos da fé da Igreja.

Ora, a paulatina publicação da revisão dos materiais pode ser uma oportunidade para aqueles que temos alguma responsabilidade nesta área fazermos mais e melhor o que nos compete, que a Igreja nos confiou:
– Como seria bom que cada catequista se sentisse mais comprometido com o seu ser Igreja e procurasse aprofundar a sua vocação baptismal!
– Como seria bom que cada serviço diocesano de catequese proporcionasse aos seus catequistas uma excelente proposta formativa que os ajudasse a serem melhores catequistas, aceitando as suas qualidades e capacidades, potenciando-as ao serviço da transmissão da fé!
– Como seria bom que cada comunidade, através de todos os seus membros, se sentisse verdadeiramente responsabilizada pela transmissão da fé e de gerar novos filhos no Filho, pela celebração dos Sacramentos de Iniciação cristã, sabendo que na medida que inicia ela mesma aprofunda a sua vivência e fidelidade ao Evangelho!
– Como seria bom que as diversas famílias religiosas e de espiritualidade pudessem dar o seu contributo neste momento da evangelização, que é a etapa catequética, aportando aquilo que têm de melhor!

Oportunidade para agir


Penso, muito sinceramente, que esta etapa da publicação dos materiais de catequese pode ser, e é, uma etapa de graça para a Igreja em Portugal, porque nos ajuda a todos a centrar a atenção na catequese e na sua importância para a vida eclesial. Permite-nos tomar consciência dos nossos limites e a ser criativos, na fidelidade ao Espírito, para superar as limitações presentes.
É uma oportunidade para vermos que só os materiais não são suficientes – por muito bons que eles sejam –, que há outros recursos a ter em conta e que, bem vistas as coisas, os materiais didácticos em todo o processo da catequese, não são a coisa mais importante, embora sejam imprescindíveis.

Contando com bons catequistas

Mas acima de tudo ajuda a dignificar e responsabilizar a figura do Catequista, um autêntico ministério eclesial que urge ser valorizado através da promoção da vocação de catequista, com processos de discernimento e convocatória bem estruturados. Através da elaboração de percursos formativos apropriados e coerentes entre si, com elaboração de linhas orientadoras para a sua missão de co-responsabilização eclesial e expressão privilegiada daquilo que a Igreja pode e deve esperar dos leigos comprometidos e capazes que, em parceria com os seus pastores, se dão a Deus na catequese.

Para uma Igreja evangelizada e evangelizadora

Para terminar, considero que esta publicação dos novos materiais, ou da revisão dos materiais didácticos, ou os «novos catecismos» – o nome é de somenos – está a ser uma boa oportunidade para todos nos questionarmos, vermos o nosso lugar na missão de catequizar, e assumirmos as nossas responsabilidades, sabendo que é a Igreja quem evangeliza, na qual todos somos imprescindíveis.

P. Luís Miguel Figueiredo Rodrigues, Arquidiocese de Braga

Deve ser horrível ser Deus

Já pensaram na pachorra que é preciso para ser Deus? Lidar com toda a humanidade ao mesmo tempo deve ser horrível. É que Deus tem de conviver com todo o tipo de pessoas. Neste caso é mesmo todo o tipo de pessoas. Não há dúvida que Deus tem de ser Deus só para conseguir suportar ser Deus.
Ser Deus é ser incompreendido. Não existe nada no mundo tão evidente, tão visível, tão compreensível como Deus. Deus, porque é Deus, resplandece em tudo. Por isso, a existência de Deus é uma das certezas mais consensuais da humanidade. No entanto Deus está também acima de tudo, infinitamente acima de tudo. Claro que Deus sabe que as suas criaturas nunca O conseguirão compreender. O problema não está aí, mas na forma como as criaturas lidam com o que não entendem.
Muitos não Lhe ligam nenhuma. Aproveitam tudo o que Ele lhes dá, sem sequer uma palavrinha para agradecer aquilo que, afinal, é tudo o que eles têm e são. Por vezes até exigem mais, invocando direitos inalienáveis. Se Deus não existisse como podiam existir direitos? Como podia existir quem os invoque? Alguém fala dos direitos de Deus?
Aqueles que acham que compreendem Deus às vezes ainda são piores. Que piegas e pedinchões! Como acham que compreendem, fazem contratos com Deus, chantagem com Deus, tentam enganar Deus, seduzir Deus, manipular Deus. Mais, como se consideram relacionados a alto nível, acham-se com direito a uma vidinha melhor. Melhor do que quê? Se é assim, porque não pedir asas ou visão raio-x?
Não é extraordinário que Deus tenha feito o universo e depois essa obra se ponha a comentar o que Ele fez e o que ela é? Temos mil críticas à forma como o mundo funciona. Como se houvesse alternativa e não fosse um privilégio indiscritível simplesmente existirmos. Nós somos os que conseguiram convite para participar neste momento e neste cantinho da Criação. Lamentar o mundo e a sociedade, desdenhar da obra e Autor é, senão grosseria, pelo menos tolice.
A mais bela criatura de Deus é a liberdade humana, e é essa que gera mais problemas. Deus criou a liberdade da forma mais radical, recuando para deixar outros fazer. Se a liberdade humana avançar para Deus consegue realizar obras espantosas. Menos perfeitas que as Deus faria sozinho, mas muito mais valiosas por serem feitas por quem não é capaz.
O risco da liberdade é que pode ser usada como se quiser. Uma liberdade sem Deus é destruição, mas isso faz parte da liberdade. O mais incrível é muitos usarem esse mal que a liberdade humana faz sem Deus como prova da inexistência de Deus. Como existe mal no mundo, que nós fizemos, então não pode existir um Deus bom, que nos fez a nós. Eu estraguei e por isso Ele não existe! Não é espantoso o raciocínio?
Talvez o mais ridículo seja nós orgulharmos daquilo que Deus fez através de nós. Alguém que não é nada senão aquilo que Deus fez, que depois teve de ser corrigido porque já estragara o que era, e que só conseguiu fazer algo de bom porque Deus lhe segurou a mão, anda todo inchado com essa sua realização! E nós todos dizemos «que grande artista!», «que genial autor!», «que excelente artigo!», sem percebermos que o verdadeiro Artista e Autor é aquele que merece palmas cada vez que passa uma mosca.
Ser Deus é tão horrível que, se Ele viesse a este mundo, as coisas iam correr mal de certeza. É verdade que os gregos, romanos e outros imaginaram como seriam as visitas dos deuses, mas eles perceberam tudo ao contrário, descrevendo a cena como um patrão a visitar a propriedade. O que aconteceria realmente seria que, depois de um momento de euforia no reconhecimento, começariam as reinvindicações, as discussões, os ataques. Não! Se Deus nos visitasse, o mais certo era Ele acabar morto da forma mais cruel que se conseguisse encontrar.
Deve ser horrível ser Deus. Afinal quem é que quereria ser Deus, para ter tanto trabalho, fazer tudo tão bem, tão perfeito e depois acabar esquecido, desprezado, incompreendido? Tem de se ser especial para se aceitar ser Deus. De facto só o Amor quereria e poderia ser Deus.

João César das Neves
Professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Cristão Adulto – VI

Um cristão praticante

É óbvio demais para se dizer: um cristão adulto é um cristão praticante! Tem de o ser.
E o que é praticar? Literalmente, é exercer, pôr em prática. A prática cristã consiste em pôr em circulação os dons recebidos, em favor da comunidade, dos irmãos. Não é critério suficiente o cumprimento do preceito dominical e demais deveres estipulados. Embora estes preceitos tenham o seu papel imprescindível, pois concentram no essencial e dão força para viver essa nova vida experimentada e saboreada: a comunhão com Deus.

Praticar implica

Praticar implica participar na celebração da Eucaristia dominical: alimentar-se com a Palavra e com o Pão da Vida, reunir-se com os irmãos da Comunidade. Aí o encontro com o Ressuscitado implica necessariamente na «missa», no envio, na missão. Pois a eucaristia como «fonte e cume de toda a vida cristã» é comunhão de vida com Deus e unidade do povo de Deus, pelas quais a Igreja é o que é, são significadas e realizadas pela Eucaristia (cf. CCE 1325).
Praticar implica a confissão sacramental, sempre que necessário, mas pelo menos uma vez por ano. Confessar-se é um acto extremamente pessoal e nada rotineiro, que um cristão adulto percebe que se o faz com sinceridade e autenticidade de arrependimento, e firme propósito de conversão sente em si os frutos da graça que perdoa. Exemplo dessa graça é a alegria do regresso do filho pródigo. Por esta prática, o cristão reconcilia-se com Deus e restabelece a comunhão plena que o pecado tinha debilitado. Reconcilia-se também com os irmãos, a quem o pecado tinha espiritualmente afectado, debilitando a comunhão fraterna.
Praticar implica viver ao ritmo do ano litúrgico. A comemoração cíclica dos acontecimentos sagrados, o memorial das maravilhas de Deus, faz com que o cristão celebre no hoje da sua história os grandes acontecimentos salvíficos de Deus em favor do Seu povo, o assuma como seus e os expresse no seu quotidiano, fazendo do ano litúrgico o seu itinerário espiritual, porque o ano litúrgico “é o desenrolar dos diferentes aspectos do único mistério pascal. Isto vale particularmente para o ciclo das festas em torno do mistério da Encarnação (Anunciação, Natal, Epifania), que comemoram o princípio da nossa salvação e nos comunicam as primícias do mistério da Páscoa” (CCE 1171).
Praticar implica entender a existência à luz de Deus, quando caminha ao lado do Ressuscitado e não se limita aos caminhos já percorridos e pré-estabelecidos, geradores de seguranças, mas curtos, muitas vezes no seu alcance. Quando solta as amarras do egoísmo e decide a percorrer caminhos não andados, desconhecidos, na sua existência, está a praticar a sua fé. Choca com os seus limites, sente-se impotente, decepciona-se de si e das suas coisas. Mas no meio da provação e da dor é capaz de gritar com convicção: Deus ama-me.

Mas é missionária
A prática cristã fica assim entrelaçada com a totalidade da vida do cristão. É um encontro permanente entre Deus e o crente, uma vida feita comunhão. O cristão encontra Deus na Palavra e nos Sacramentos, para continuar a encontrá-Lo mais apaixonadamente aí onde Ele não está e onde a Igreja o deve tornar presente; ou de uma forma mais precisa, onde está oculto e quer ser encontrado.
O cristão adulto vive o mandato do Senhor:
“Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra.
Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos”(Mt 28, 19-20).