Diretório para a Catequese (2020) – Audiobook


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Introdução ao Diretório para a Catequese, Edição Portuguesa

Apresentação


INTRODUÇÃO


PRIMEIRA PARTE
A catequese na missão evangelizadora da Igreja


Capítulo 1 – A Revelação e a sua transmissão

Capítulo 2 – A identidade da catequese

Capítulo 3 – O catequista

Capítulo 4 – A formação dos catequistas



SEGUNDA PARTE
O processo da catequese


Capítulo 5 – A pedagogia da fé

Capítulo 6 – O Catecismo da Igreja Católica

Capítulo 7 – A metodologia na catequese

Capítulo 8 – A catequese na vida das pessoas



TERCEIRA PARTE
A catequese nas Igrejas particulares


Capítulo 9 – A comunidade cristã, sujeito da catequese


Capítulo 10 – A catequese diante dos cenários culturais contemporâneos


Capítulo 11 – A catequese ao serviço da inculturação da fé


Capítulo 12 – Os organismos ao serviço da catequese


CONCLUSÃO

Do Digital ao Litúrgico, para tocar o Mistério

Quando Mons. Rino Fisichela apresentava o Diretório para a Catequese dizia que «Igreja está diante de um grande desafio que se concentra na nova cultura com a qual se vai encontrando, a cultura digital (…). Diversamente do passado, quando a cultura estava limitada ao contexto geográfico, a cultura digital tem um valor que sente os efeitos da globalização em curso e determina o seu desenvolvimento»[1]. Este é o tempo em que vivemos, e tem diversas formas de ser descrita, mas uma das que está a fazer um caminho significativo é a da «modernidade líquida», da autoria do sociólogo polaco Zygmunt Bauman[2]. Na descrição daquele sociólogo, num mundo híperultrapósultra, — e o que mais se quiser acrescentar — moderno não há um ponto de referência firme, não há autores de referência, não há ponto de apoio. O mundo é uma grande aldeia conectada, onde cada um surfa sobre as ondas do efémero. Neste contexto antropológico, melhor, de pobreza antropológica que Lipovetsky descreve como «era do vazio»[3], a evangelização terá como função, sobretudo, dotar cada pessoa de uma carta topográfica e de uma bússola, uma vez que cada pessoa é convidada a traçar o caminho da sua própria vida.

A este dado acresce-se o facto de que o contexto sócio-cultural em que vivemos tem dificultado e até agravado a situação, o que é certo é que, apesar de mudar o vocabulário da catequese, as mentalidades e as práticas concretas não se alteram significativamente. Continua a predominar uma catequese de tipo escolar, com estas caraterística: «redução a um encontro semanal, por vezes em apertados horários pós-escolares e a par ou mesmo em concorrência com atividades formativas ou recreativas talvez mais aliciantes; uma calendarização idêntica à da escola, com os catequizandos ausentes das maiores celebrações, como as da Páscoa e do Natal, por se realizarem em tempo de férias; a instrumentalização das celebrações ao longo do percurso catequético, incluindo a do Crisma, para segurar os catequizandos até, uma vez crismados, deixarem a Igreja como deixam a escola; a linguagem usada, predominantemente escolar – “matrículas”, “exames” “aulas”, “alunos” e a identificação destes por anos, como na escola»[4]

Diante deste fenómeno, tomamos consciência de que o superar destas dificuldades só será possível se conjugarmos harmoniosamente catequese, liturgia e caridade. A catequese tem assim um estilo querigmático, catecumenal, iniciático e mistagógico. A tese que pretendemos defender é a de que, na cultura digital, a liturgia desempenha o papel de fio condutor da ação catequizadora, para que esta tenha um estilo catecumenal.

O contributo do “digital”

A fé, ao ser percebida como relação, postula um processo de transmissão, e este é-o na medida em que supera o tempo e o espaço, o que evidencia a importância e o significado da tradição que, de si, inclui algo próximo à educação. Razão pela qual a catequese e a formação dos educadores da fé deve ter como solo privilegiado a reflexão sobre a transmissão da fé, nas suas diversas coordenadas: pessoal, eclesial e de conteúdo. Estas coordenadas assumem enfoques diferentes ao serem integradas na cultura digital. Surge algo de novo, que o Diretório para a Catequese sublinha e apresenta linhas de ação muito frutíferas (cf. DpC 359-ss). Se à catequese importassem apenas os conhecimentos (fides quae), a cultura digital — e consequente inteligência coletiva (Pierre Lévy[5]) — vista como mera substituição de suporte, não só não ofereceria dificuldade como traria grandes vantagens; mas importa também a adesão vital (fides qua), sem a qual não é possível a experiência de fé no Deus de Jesus Cristo. Para a educação e transmissão da fé não basta, então, dizer; é preciso suscitar a fé, promovendo o diálogo através de uma proposta significativa para cada indivíduo. Pela narração da experiência pessoal de fé — pelo testemunho — convida-se outros à experiência de Deus. 

O Papa Francisco desafia os agentes pastorais a exercitar-se

«na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a capacidade do coração que torna possível a proximidade, sem a qual não existe um verdadeiro encontro espiritual. Escutar ajuda-nos a individuar o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da cómoda condição de espectadores. Só a partir desta escuta respeitosa e compassiva é que se pode encontrar os caminhos para um crescimento genuíno, despertar o desejo do ideal cristão, o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus e o desejo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa própria vida» (EG 171).

Este é o objetivo c catequese, a ser integrado com às novas tecnologias, que não são meros instrumentos. Antes promovem um determinado estilo de sociedade, a qual, e através da qual, é preciso evangelizar. Mas este é um processo comunitário, logo responsabilidade de todo o corpo eclesial, onde cada sujeito é convidado a contribuir com a narração da sua experiência de Deus, com o seu testemunho. 

A fé cristã, ao ser sobretudo uma experiência de relação, não pode ser vertida, sem mais, para um suporte digital, sob qualquer formato, porque não obterá o resultado esperado: a transmissão. A Web, como meio, tem antes a capacidade de ser o catalisador positivo, porque, numa cultura de paradigma informacional, pode potenciar os processos de transmissão, ao ser o meio dominante.

O modo de estar na Web, implica, então, um novo modo de dizer e escutar, de onde sobressaem os seguintes desafios: 

– passar de uma catequeses de respostas à de perguntas, 

– do centrar-se nos conteúdos para se centrar nas pessoas;

– do centrar-se nas ideias para se centrar na narração.

Primeiro, a catequese, ao deslocar a sua preocupação das respostas para as perguntas, assume o facto de que hoje não é difícil encontrar uma mensagem que faça sentido; a dificuldade reside, antes, em descodificá-la, reconhecê-la como importante e significativa, no meio das inúmeras ofertas disponíveis e no contexto de uma identidade crente. Ao esforço de dar respostas, em ter uma resposta, que surgirá sempre como mais uma no meio de tantas, corresponde a apresentação do Evangelho não como o livro que contem todas as respostas, mas como o livro que contém todas as perguntas juntas, as que valem a pena ser respondidas. Este dado postula um esforço catequético que não se centre apenas na oferta de conteúdos, mas na liberdade de procurar, de forma crítica, os conteúdos que oferecem sentido.

segundo desafio depreende-se do anterior: uma catequese que se centre nas pessoas e não nos conteúdos. A internet favorece uma busca à medida, onde cada um procura o que quer, quando quer e onde quer. Já não há uma oferta programada para todos em simultâneo, antes buscas que implicam seleções e interações. O poder transitou do emissor para os recetores, admitindo como possível, ainda, o uso desta terminologia. E a busca espiritual, também ela, participa desta lógica, pelo que o programa é elaborado à medida de cada um, a partir dos conteúdos disponíveis na internet. E estes serão tanto mais úteis quanto mais forem respostas às inquietações do cibernautas, o que implica uma atitude permanente de os escutar. A cultura digital oferece esta oportunidade para dialogar, para compreender quais são as «alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje» (GS 1). E é aqui que ganham redobrada importância os “amigos” e os “seguidores” na Web, uma vez que estes serão tanto mais eficazes quanto forem capazes de ser significativos para a rede de cada pessoa. A centralidade das pessoas e não dos conteúdos leva a assumir uma presença eclesial cada vez mais comunicativa e participativa, que favorece a narração testemunhal da experiência crente, com a qual é possível identificar-se. E este testemunho permite fazer emergir a relação entre indivíduos, o que implica a partilha de redes de relações. Nesta teia, o conteúdo partilhado está intrinsecamente ligado a quem o partilha, e é o quem que acaba por qualificar o quê.

terceiro desafio, o centrar-se na narração e não nas ideias, é a consequência natural das relações interpessoais, porque aqui o que se realiza é o dizer dizendo-se, na proximidade do encontro de uma vida partilhada.

«Neste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a “mística” de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa caravana solidária, numa peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos» (EG 87).

A cultura digital oferece uma oportunidade fantástica para dar visibilidade e tornar significativas as experiências vividas, graças à facilidade com que se podem narrar e partilhar. E narrar é restituir os sujeitos do conhecimento à densidade simbólica e experiencial do mundo. A narração na rede poder ser, sim, individualista e autorreferencial, mas também pode ser polifónica e aberta. As novas formas de narrar e escutar implicam uma ecologia educativa digital acolhedora, capaz de amparar as perguntas que na Web se podem fazer e que não encontram lugar noutros âmbitos, sem esquecer que as novas paisagens mediáticas permitem integrar a continuidade bidirecional entre o virtual e o presencial.

A questão, está, então em reconhecer um tempo e um espaço numa cultura que, de si é desterritorializada e atemporal. E aqui, uma vez mais, a Liturgia ocupa um ligar de destaque para uma cultura que tem toda a informação diante de si, num presente absoluto. A este desafio, a liturgia pode oferecer três contributos[6].

O primeiro é a recuperação da diacronia, através da profissão de uma fé que tem consequências na vida pessoal e comunitária, onde se atualiza, e onde a comunidade funciona como lugar da memória. 

O segundo ganho vem com a proposta de ações que permitam a aquisição sapiencial do conhecimento, numa sadia relação com a diacronia, onde o escutar e o deixar-se interrogar pelas grandes questões mostram que o ser humano permanece o mesmo de sempre. Aqui, a recuperação da experiência celebrativa da identidade cristã tem um redobrado impacto, porque dá ritmo ao tempo e espaço à sabedoria.

O terceiro ganho prende-se com a recuperação do conceito de tradição, que leva a tomar consciência de que o hoje é resultado de um caminho andado, a nível horizontal, mas o aqui e agora do crente é-o porque Deus irrompeu e irrompe na história, pelo que a História da Salvação e a Liturgia readquirem uma nova importância, são capazes de dar sentido e de abrir à universalidade, a partir de uma perspetiva escatológica. A experiência é vista, então, como um caminho e um itinerário de sentido.

Para concluir, o que está na base de tudo isto é a unidade da vida cristã que por vezes separamos metodologicamente, mas deve estar unido em cada pessoa. Implica superar a fragmentaridade. Encontro com os olhos fixos em Jesus Cristo e a partir deste ponto a lex credendi abandona-se à lex orandi . Isto é importante para a vida litúrgica e para a piedade popular.


[1] Rino Fisichella, «Conferencia de presentación del Directorio para la Catequesis elaborado por el Consejo Pontificio para la Promoción de la Nueva Evangelización», Vatican.va, 25 de Junho de 2020, https://press.vatican.va/content/salastampa/es/bollettino/pubblico/2020/06/25/pontif.html.

[2] Zygmunt Bauman, Liquid Modernity (Cambridge: Polity Press, 2000); Zygmunt Bauman, Liquid Life (Cambridge: Polity Press, 2005).

[3] Cf. Gilles Lipovetsky, L´Ère du vide: essais sur l’individualisme contemporain (Paris: Gallimard, 1983).

[4] Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, «Catequese: A alegria do encontro com Jesus Cristo», 2016, par. 2, https://drive.google.com/file/d/0Bza0W92D8A0SYndVcDF4WEIzLXM/view.

[5] Cf. Pierre Lévy, As Tecnologias da Inteligência (Lisboa: Instituto Piaget, 1994).

[6] Cf. Giuseppe Lorizio, «L’antropologia cristiana e la nuova cultura mediale», 2004, http://www.webcattolici.it/webcattolici/allegati/294/Relazione-Lorizio.pdf.

A Força do Símbolo


A liturgia, como ação eminentemente simbólica que é, educa sobretudo pela força do símbolo. Este, ao conectar com o mais profundo de cada pessoa, é um instrumento pedagógico fantástico para promover a conversão a Jesus Cristo, desde que nos deixemos transformar por aquelas realidades que são símbolos da ação salvífica de Deus realizada por Jesus Cristo, sob a ação do Espírito Santo.
Os símbolos, como realidades polissémicas que são, precisam de ser “guiados” na sua compreensão, para que não nos fiquemos na dispersão de significados. Por isso, «cada celebração sacramental é um encontro dos filhos de Deus com o seu Pai, em Cristo e no Espírito Santo. Tal encontro exprime-se como um diálogo, através de ações e de palavras. Sem dúvida, as ações simbólicas são já, só por si, uma linguagem. Mas é preciso que a Palavra de Deus e a resposta da fé acompanhem e deem vida a estas ações, para que a semente do Reino produza os seus frutos em terra boa. As ações litúrgicas significam o que a Palavra de Deus exprime: ao mesmo tempo, a iniciativa gratuita de Deus e a resposta de fé do seu povo» (CCE 1153).
Uma celebração sacramental é, então, tecida de sinais e de símbolos. Segundo a pedagogia divina da salvação, a sua significação radica na obra da criação e na cultura humana, determina-se nos acontecimentos da Antiga Aliança e revela-se plenamente na pessoa e na obra de Cristo.



Sinais do mundo dos homens. Os símbolos ocupam um lugar importante na vida humana. Sendo a pessoa humana um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual, exprime e percebe as realidades espirituais através de sinais e símbolos materiais. Como ser social, a pessoa tem necessidade de símbolos para comunicar com o seu semelhante através da linguagem, dos gestos e de ações. O mesmo acontece nas suas relações com Deus.
Deus fala-nos através da criação visível. O cosmos material apresenta-se à inteligência do homem para que leia nele os traços do seu Criador. A luz e a noite, o vento e o fogo, a água e a terra, a árvore e os frutos, tudo fala de Deus e simboliza, ao mesmo tempo, a sua grandeza e a sua proximidade.
Enquanto criaturas, estas realidades sensíveis podem tornar-se o lugar de expressão da ação de Deus que santifica os homens e da ação dos homens que prestam a Deus o seu culto. O mesmo acontece com os sinais e símbolos da vida social: lavar e ungir, partir o pão e beber do mesmo copo podem exprimir a presença santificante de Deus e a gratidão da criatura para com o seu Criador.
As grandes religiões da humanidade dão testemunho, muitas vezes de modo impressionante, deste sentido cósmico e simbólico dos ritos religiosos. A liturgia da Igreja pressupõe, integra e santifica elementos da criação e da cultura humana, conferindo-lhes a dignidade de sinais da graça, da nova criação em Cristo Jesus.

Sinais da Aliança. povo eleito recebe de Deus sinais e símbolos distintivos, que marcam a sua vida litúrgica: já não são unicamente celebrações de ciclos cósmicos e práticas sociais, mas sinais da Aliança, símbolos das proezas operadas por Deus em favor do seu povo. Entre estes sinais litúrgicos da Antiga Aliança, podem citar-se a circuncisão, a unção e a sagração dos reis e dos sacerdotes, a imposição das mãos, os sacrifícios e sobretudo a Páscoa. A Igreja vê nestes sinais uma prefiguração dos sacramentos da Nova Aliança.

Sinais assumidos por Cristo. Na sua pregação, o Senhor Jesus serve-Se muitas vezes dos sinais da criação para dar a conhecer os mistérios do Reino de Deus. Realiza as suas curas ou sublinha a sua pregação com sinais materiais ou gestos simbólicos. Dá um sentido novo aos factos e sinais da Antiga Aliança, sobretudo ao Êxodo e à Páscoa, porque Ele próprio é o sentido de todos esses sinais.

Sinais sacramentais. Depois do Pentecostes, é através dos sinais sacramentais da sua Igreja que o Espírito Santo opera a santificação. Os sacramentos da Igreja não vêm abolir, mas purificar e assumir, toda a riqueza dos sinais e símbolos do cosmos e da vida social. Além disso, realizam os tipos e figuras da Antiga Aliança, significam e realizam a salvação operada por Cristo, e prefiguram e antecipam a glória do céu.

Jesus fez-se História

Pelo mistério da Incarnação, Jesus inseriu-se numa história e num contexto cultural bem definido. Neste sentido, não foi diferente de nenhum de nós. Todos estamos ligados a uma terra, um credo e uma família. E a nossa vida é muitas vezes moldada pelo ambiente circundante em que vivemos. As nossas acções são reflexo do ambiente cultural e cultual em que estamos inseridos.
Jesus, o Filho de Deus, foi construindo o seu “álbum de memórias” ao longo de 33 anos que teve como pano de fundo várias terras da Judeia e da Galileia. De entre as várias localidades poderíamos destacar Belém, Jerusalém e Nazaré. Isto porque Jesus nasceu na Palestina, em Belém; viveu em Nazaré e percorreu todo o território da Galileia à Judeia. Acabou por ser crucificado às portas de Jerusalém, numa pequena colina chamada Calvário (ou Gólgota em aramaico).

Belém é um território da palestina sob o regime israelita e significa precisamente “a casa do pão”. Vem como que lembrar a história do povo de Israel que foi obrigado a partir de sobressalto, apenas levando o pão ázimo. O pão era o principal alimento de Israel, e por isso quando um judeu queria agradecer a Deus pelo alimento, levava o pão até ao templo.
Nazaré era, naquela altura, uma pequena aldeia com pouca importância, ao ponto de se afirmar: “de Nazaré pode vir alguma coisa boa?” (Jo 1, 46). Se, por um lado, isto era verdade, pelo outro, em termos messiânicos, adquiriu bastante valor. Esta era a povoação onde viviam os descendentes da família do rei David, entre os quais se inclui José e Maria. Foi aqui que Maria o Anjo interpelou Maria e ela glorificou o Senhor (Jo 1, 46-56); é também em Nazaré que a Sagrada Família se instala e Jesus passa grande parte da sua vida.
Em termos políticos e religiosos importa ter noções, ainda que breves. Quanto às classes sociais sabemos, pelo Novo Testamento, que seriam quatro: alta classe (onde se inclui os comerciantes, os escribas, doutores da lei e sumos sacerdotes); média classe (seriam os pequenos comerciantes, funcionários do estado, os publicanos, os escribas e os fariseus); classe pobre (os pastores, assalariados… o povo em geral); classe marginalizada (seriam essencialmente os pobres, viúvas, órfãos e doentes. Naquela altura, todos os que se encontravam nesta situação não pertenciam à sociedade e não tinham quaisquer direitos. Daí a preferências das primeiras comunidades por esta classe social (cf. Tg 1, 25)).
Em termos religiosos havia cinco grupos religiosos: fariseus (que se consideravam os santos e puros, guardiães da verdadeira fé cristã); saduceus (eram conservadores e acreditavam na ressurreição. (Mt 22, 23)); essénios (eram monges eremitas que viviam nas grutas de Qumram, junto ao Mar Morto); samaritanos (grupo separado dos judeus e que viviam em constante confronto com eles); zelotas (eram um dos vários grupos de resistência política contra os romanos).
Foi nestas circunstâncias que Jesus viveu a sua vida: rodeado de tensões tanto ao nível político como ao nível religioso. Viveu ainda num clima de expectativa, de ansiedade pela vinda do salvador que iria libertar o povo de Israel do domínio romano. Foi por isso que quando Cristo falou do Reino, muito entenderam num sentido político e não em termos escatológicos. Apesar de tudo, Jesus soube inculturar-se e não pretendeu fugir do mundo, mas antes comprometer-se com ele e apresentá-lo a Deus.

Jesus Cristo é o Senhor

Olhando para a nossa realidade circundante, verificamos que as crianças experimentaram um contacto diversificado com a pessoa de Jesus. A imagem que têm Dele foi acompanhando o seu próprio crescimento e foi-se transformando: no princípio, Jesus era o “melhor amigo”, depois foi introduzido como o Filho de Deus. Agora, deve nascer a consciência que Jesus é o Senhor. Ele foi Homem como nós, excepto no pecado, e inaugurou um novo reino de felicidade e salvação. Esse reino perpetua-se através da Igreja e renova-se diariamente em todos nós. Cristo é, portanto, o “Senhor” e Senhor da nossa vida. Mas, o que significa ser o “Senhor”?

No Antigo Testamento, Deus revelou-se a Moisés por “Eu sou Aquele que sou” (Ex 3, 14), ao que os Gregos traduziram por Kyrios, ou seja, “Senhor”. Por esta altura os reis governavam engrandecidos pelo seu nome. Era como que o seu passaporte e espelhava a sua missão. Deus, enquanto rei de Israel, apresentou-se como o Senhor. No Novo Testamento, Jesus é reconhecido como sendo o próprio Deus, logo Ele é Senhor.
Sabemos, pelos evangelhos, que várias pessoas se aproximaram de Jesus invocando este título cristológico. Pretendem exprimir o “respeito e a confiança dos que se achegam a Jesus e esperam dele ajuda e cura” (CCE 448). Reconhecendo a acção salvífica e taumatúrgica de Cristo (o Ungido) mais não podem senão exclamar: “É o Senhor” (Jo 21, 7).


O mesmo convite é lançado a todos nós: reconhecer que Jesus Cristo é o Senhor! Percorrer este caminho implica, portanto, uma confissão de fé (apenas possível pela acção do Espírito Santo) onde O aceitamos como Filho de Deus e O temos como centro da nossa vida. Por sua vez, esta confissão comporta um modo de vida muito particular: a opção fundamental por Cristo. Diz o Evangelho que “ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24). O mesmo é dizer que apenas devemos submeter a nossa liberdade a Deus Pai e ao Senhor Jesus Cristo e a mais ninguém: seja o dinheiro, fama ou outras paixões (cf. CCE 450).
Por fim, não podemos deixar de mencionar que qualquer oração cristã e, em especial, a Eucaristia são constantes hinos ao senhorio de Jesus. Nelas convidamos à oração através de “o Senhor esteja convosco” e terminamos “por nosso Senhor Jesus Cristo”. No acto penitencial, por exemplo, clamamos: “Kyrie, eleison”, ou seja, “Senhor, tende piedade de nós”. É o reconhecimento de que Jesus é o centro de toda a vida cristã.

A Liturgia na educação da Fé

A Igreja, através da sua ação profética, procura anunciar a Palavra de Deus, não como uma teoria que há que aprender, mas como uma realidade que se experimenta. Dito de outra forma, ao anúncio da Palavra corresponde o devido acompanhamento que quem a recebe, para que possa dar o livre assentimento da fé. O Concílio Ecuménico Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Revelação Divina di-lo deste modo: «A Deus que revela é devida a “obediência da fé”; pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus oferecendo “a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade” e prestando voluntário assentimento à Sua revelação» (DV 5). 


Este facto coloca à educação da fé algumas questões que importa ter presente:
A primeiratem a ver com a evidência de que a educação acontece pela “obediência”, ou seja, pela escuta da Palavra. Esta não é um mero aglomerado de letras ou sons, mas uma Pessoa, Jesus Cristo. Escutar a Palavra é aceitar estar em intimidade com Jesus Cristo, deixando-se transformar pelo que Ele diz e faz. Mas quais são as palavras e os gestos que nos transformam? Aqueles que são realizados pelas pessoas por quem temos algum afeto, que amamos! A inteligência deixa-se iluminar pelo Amor e a vontade quer fazer aquilo desejamos, porque O amamos.
A segundaquestões a ter presente tem a ver com o modo como se educa o afeto. Não me refiro às simples emoções, mas sim ao afeto como dimensão da pessoa que nos faz querer e desejar algo. O afeto educa-se pela familiaridade: aprendemos a amar com o contacto assíduo e gozoso! Então, como havemos de educar o afeto para que se aprenda a amar Cristo? Pelo convívio assíduo com Ele, ali onde Ele está real e sacramentalmente presente, na Liturgia, sobretudo eucarística, pois «Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles» (Mt 18, 20). A Liturgia desempenha, então, um papel central na educação da fé, pois é ela que permite que alguém se deixe enamorar por Cristo, ver a Sua beleza e querer aderir a ele.
Chegamos então ao terceiro aspeto, o da liberdade. Esta nunca pode ser violentada nem ignorada, até porque a fé é a adesão com que cada pessoa se entrega a Deus… As palavras e ensinamentos serão “preceitos” distantes e frios, se não forem as palavras de Alguém que se dá a conhecer por amor. E o que é frio e distante não promove a adesão, antes afastamento e até desafeição. Os valores evangélicos que se procuram ajudar a descobrir na educação da fé também não serão acolhidos se antes não houver um adesão afetiva com Cristo e o desejo de querer segui-Lo. Logo, a liberdade para aderir a Cristo promove-se e educa-se na ação litúrgica.


Concluindo, se a catequese deve educar para a participação litúrgica, deve também deixar-se educar pela liturgia. Aqui, a primazia é de Deus, não dos homens, os frutos surgem, não do mero empenho humano, mas da iniciativa divina que atua em cada pessoa. Porque «para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá “a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade”. Para que a compreensão da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé mediante os seus dons» (DV 5).

A Catequese na missão da Igreja

Num contexto cultural cada vez mais exigente para a proposta de fé, a catequese assume, gradualmente, uma função missionária. Com efeito, tendo a catequese a missão de anunciar a Palavra de Deus, a fim de despertar a fé nos catequizandos, verifica-se, no entanto, que estes se encontram cada vez menos predispostos para responder ao anúncio do Evangelho.
Assim, a transmissão da Mensagem de Deus, que outrora passava quase espontaneamente de pais para filhos, perdeu no ambiente social e cultural o seu suporte. A catequese assume, cada vez mais, a função de despertar a fé, converter os batizados que não conhecem ou não vivem o cristianismo, levar o evangelho aos afastados. Daí que, já na Exortação Apostólica Christifideles laici, João Paulo II chame a atenção para a necessidade de uma nova evangelização: «Chegou a hora de empreender uma nova evangelização. […] Esta nova evangelização […] destina-se a formar comunidades eclesiais amadurecidas, isto é, comunidades em que a fé se liberte e realize todo o seu significado original de adesão à pessoa de Cristo e ao seu Evangelho […] A Igreja deve, hoje, dar um grande passo em frente na sua evangelização, deve entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário» (ChL 34-35). De facto, a evangelização, cuja finalidade é a de anunciar o Evangelho e dar testemunho dele em todos os momentos, é a missão e a razão de ser da Igreja: «Evangelizar constitui, de facto, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade» (EN 14). Ela existe para tornar presente a experiência de Jesus Cristo e a sua mensagem de salvação, de modo que todo o homem possa descobrir em Jesus o caminho para a verdade.
Podemos, assim, entender a catequese como um momento fundamental do processo evangelizador, uma vez que é graças a ela que o primeiro anúncio da Boa Nova é pouco a pouco aprofundado, desenvolvido, explicado e orientado para a prática cristã. Para tal, é indispensável que a catequese se centre na pessoa de Jesus Cristo e no Seu mistério de Salvação, apresentando-o como Boa Nova, fonte de esperança e de sentido para a vida humana. «Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse … o desafio […] consiste […] em levar os baptizados a converterem-se a Cristo e ao seu evangelho» (EE 47) Deste modo, a catequese deve convidar o batizado a uma atitude de conversão ao Senhor e ao compromisso com o testemunho do Evangelho no mundo, num processo de solidificação e amadurecimento da fé. A catequese é, então, o momento “fundamental” e “prioritário” de evangelização pois lança as bases que podem dar solidez à vida cristã futura (cf. CGD 63-64) dos batizados, conduzindo-os a uma participação ativa na comunidade cristã. Com efeito, toda a atividade catequética tem em vista a inserção do catequizando na vida da Comunidade. O importante, para um cristão, não é saber mais do Evangelho, mas sim dar um testemunho fiel e firme do Evangelho em todos os momentos da sua vida. 

A alegria de ser catequista

Chamado a ser um educador da fé, o catequista deve ser, antes de mais, uma pessoa de verdadeira fé, virtude pela qual acreditamos em Deus e em tudo o que Ele disse e revelou. Sendo a sua missão a de anunciar e transmitir a Mensagem de Deus, a fé do catequista alimenta-se quotidianamente com a meditação do Evangelho, bem como com a prática da caridade. O catequista é alguém consciente de que «a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se veem» (Hb 11, 1-2) e, por isso, fundamenta-se na Palavra de Deus, que é uma Pessoa. O catequista possui, então, certezas simples e sólidas que o hão de ajudar na prática do seu ministério apostólico. Com efeito, enquanto evangelizador e apóstolo de Jesus Cristo, o catequista deve apresentar-se aos outros como a «imagem de pessoas amadurecidas na fé, capazes de se encontrarem para além de tensões que se verifiquem, graças à procura comum, sincera e desinteressada da verdade» (EN 77). Só sendo detentor de uma verdadeira fé, o catequista poderá realizar a sua missão de transmiti-la, com tranquilidade.


Não obstante, o catequista, enquanto educador da fé, não guarda a fé para si mesmo; pelo contrário, ele é alguém chamado por Deus a anunciar, a transmitir e a dar testemunho dessa mesma fé, nas mais diversas circunstâncias da sua vida. Na verdade, o anúncio da Mensagem de Deus é feito, antes de mais, pelo testemunho daquele que vive a fé: A Igreja tem bem presente que «o testemunho de uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, numa comunhão que nada deverá interromper, e dedicada ao próximo […] é o primeiro meio de evangelização. “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres […] ou então se escuta os mestres é porque eles são testemunhas”» (EN 41). No exercício do seu ministério apostólico, o catequista dá testemunho, por meio das palavras e ações, da sua própria experiência cristã.
Num ambiente onde as pessoas tendem a afastar-se de Deus, é cada vez mais necessário catequistas com convicções profundas que, em diálogo com o mundo, anunciem com alegria a graça que receberam ao se sentirem associados à missão de Jesus Cristo: a de dar a conhecer a Boa Nova, testemunhando-a no seu dia a dia. Os catequistas anunciam uma mensagem que, pelo seu significado, dá origem a um novo estilo de vida. Quanto mais o catequista se mostre alegre no anúncio da Palavra, tanto mais credível será a mensagem para os que a escutam.


Com efeito, é precisamente a alegria do catequista, no anúncio da Palavra e do Evangelho, a demonstração mais evidente de que a Boa Nova, que anuncia, encheu o seu coração. O catequista tem consciência que Deus está com ele; e é, pois, esta comunhão que se estabelece entre os dois que leva cada catequista a sentir necessidade, como profeta, de anunciar a Verdade que o anima. Esta consciência de participar do amor de Deus leva-o a ser sal e luz do mundo, anunciando a Boa Nova com alegria, dando-lhe força e determinação para continuar a sua missão, apesar das dificuldades que, muitas vezes, surgem no seu caminho.

Desafios à catequese de todos os tempos

A catequese é um momento essencial no processo evangelizador da Igreja, ao serviço da iniciação cristã. Uma vez que é à catequese que se atribui, cada vez mais, a responsabilidade de despertar a fé no catequizando, torna-se importante rever a nossa forma de perceber a catequese. O Directório Geral de Catequese de 1997 propõe-nos algumas implicações práticas


– Uma catequese que seja, antes de mais, uma formação orgânica e sistemática na fé, uma vez que esta proporciona uma aprendizagem de toda a vida cristã sem se reduzir ao ocasional ou ao ensino: «Trata-se de educar no conhecimento e na vida de fé» (DGC 67). Não basta transmitir conteúdos, explicar a fé e falar de Cristo. É indispensável que a catequese faça “ver Jesus” (NMI 16), atualizando o convite do Evangelho: “Vinde e vede” (Jo 1,39). O seu objetivo é, de facto, educar o catequizando no conhecimento e na vida da fé, de modo a que este se sinta tocado pela Palavra de Deus. Deste modo, a catequese ajuda o catequizando, enquanto discípulo de Cristo, a assumir os seus compromissos baptismais e a professar a fé «a partir de uma adesão global, por uma sincera conversão do coração» (CT 20). A catequese é, pois, uma formação centrada naquilo que constitui o núcleo da experiência cristã, «nas certezas mais profundas da fé e nos valores evangélicos mais fundamentais» (DGC 67).
– Um itinerário de conversão de si mesmo ao Deus vivo. Tendo a catequese a finalidade de promover a comunhão do catequizando com Jesus Cristo, esta deve, por isso, mostrar claramente a identidade cristã em confronto com a cultura atual, caracterizando o perfil do discípulo de Cristo, um estilo de vida distinto, que segue um projeto diferente do mundo e se torna, pela sua forma de viver, construtor de um mundo novo.
– Um itinerário com fases que correspondam a níveis de crescimento, celebradas com ritos próprios. É necessário que a passagem das fases corresponda à aquisição de capacidades e competências, à aprendizagem de gestos e à assimilação de conhecimentos.
– Uma relação mais forte da catequese com a liturgia. De facto, a liturgia é a fonte e o cume de toda a vida cristã (cf. LG 11), onde os catequizandos experimentam o que ouvem na catequese e descobrem os sinais visíveis da presença e ação de Deus. Por isso, a catequese deve promover no catequizando um conhecimento dos significados litúrgicos e sacramentais, os sinais e a dimensão comunitária da celebração. A catequese deve, sobretudo, levar o catequizando a viver na celebração litúrgica e na oração o que aprende sobre a vida cristã.
– Uma ligação mais forte da catequese à comunidade cristã, sua origem, ambiente e meta. A comunidade cristã é chamada a acolher e a acompanhar o itinerário de crescimento na fé.
– Uma catequese que não fique no conhecimento da fé e na celebração da liturgia mas eduque no amor a Deus e aos outros e conduza ao compromisso de ser fermento do Reino de Deus no mundo.


A pedagogia divina, modelo da pedagogia da fé

Num contexto de nova evangelização, ou de proposta continuamente renovada da comunhão com Deus, urge recolocar Deus no centro das perguntas do nosso existir e deixar que seja Ele a resposta, e não dar respostas d’Ele. É próprio Concílio Vaticano II alerta os crentes que «[os cristão] pela negligência da sua fé, ou pelas deficiências da sua vida religiosa, moral e social, esconderam, mais do que revelaram, o autêntico rosto de Deus» (GS 19). Assim, num mundo plural e em permanente mudança, urge a necessidade de uma nova refontalização da pedagogia da fé, ou seja, uma pedagogia que eduque de forma personalizada e que respeite e preserve a originalidade e individualidade de cada pessoa, bem como as suas dúvidas e as suas aspirações.
 A pedagogia da fé, ao inspirara-se na pedagogia divina, é como que uma arte de fazer suscitar, despertar, descobrir e fazer crescer a fé (DGC 143), a catequese tem de encontrar uma pedagogia que seja capaz de comunicar a Palavra de Deus, tendo em atenção os diferentes destinatários a quem se dirige. Deste modo, a catequese deve utilizar uma pedagogia que esteja ao serviço da fé, ou seja, uma pedagogia personalizada, dinâmica e ativa, que comunique, a Revelação de Deus, numa atitude de busca contínua, para que os catequizandos possam encontrar e aderir a Deus, assumindo um estilo de vida cristão.
Ao longo de toda a História da Salvação, no Antigo Testamento e principalmente nos Evangelhos, Deus serviu-se de uma pedagogia, através da qual se ia dando a conhecer. Com efeito, Deus procurou falar à humanidade, como amigos, revelando o Seu amor gratuito e incondicional. Deus apresenta-se como nosso Pai, aceita cada um de nós tal como somos e respeita, com benevolência, o nosso ritmo de crescimento na fé. Deus é um verdadeiro Mestre, um Educador que educa a partir de situações reais, e extraindo delas lições de sabedoria.

A revelação que Deus foi fazendo de Si mesmo à humanidade atinge a sua plenitude em Jesus Cristo, Seu Filho, que continuou a “Pedagogia de Deus” com a perfeição e a eficácia próprias da novidade da Sua pessoa (DGC 140). Tal como Deus, o ensino e a vida de Jesus são pautados pelo amor dedicado, sincero e gratuito. A vida e a mensagem de Jesus são um desafio constante à conversão, à vivência do mandamento novo da caridade! É um convite permanente a uma nova forma de pensar, de amar, de agir e de viver — é um novo estilo de vida —, procurando suscitar em cada pessoa uma resposta livre, para que este adira livremente ao Evangelho. A pedagogia de Jesus convida cada pessoa a uma forma de viver marcada pela fé em Deus, pela esperança do Reino e pela caridade para com o próximo (DGC 140). No anúncio da Boa Nova, Jesus procura seguir uma pedagogia pautada pela atenção e pelo respeito às pessoas; pela escuta e pelo diálogo, aproximando-se das pessoas, dando o primeiro passo e oferecendo-lhes a sua amizade; pela confiança nas pessoas e pela gratidão, procurando sempre desviar a atenção e o entusiasmo das pessoas para com a sua pessoa. Jesus não procura centrar as atenções em Si, mas no Reino e em Deus Pai! Jesus procura anunciar os mistérios de Deus partindo sempre das experiências reais das pessoas e utilizando uma linguagem simples e significativa.
Eis aqui uma série de atitudes pedagógicas de Jesus que devem inspirar a catequese. Com efeito, «a catequese, sendo comunicação da revelação divina, inspira-se radicalmente na pedagogia de Deus […], acolhe os parâmetros constitutivos e, guiada pelo Espírito Santo, faz uma sábia síntese da mesma, favorecendo, assim, uma verdadeira experiência de fé, um encontro filial com Deus» (DGC 143). Ainda a este respeito, na sua Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, também João Paulo II refere que «o próprio Deus serviu-se de uma pedagogia que deve continuar a ser modelo da pedagogia da fé» (CT 58).

A pedagogia catequética deve, então, ser:
– uma pedagogia que coloque os catequizandos em diálogo com Deus, numa relação interpessoal;
– uma pedagogia que respeite a progressividade da revelação divina e a dimensão misteriosa da Palavra de Deus;
– uma pedagogia que reconheça a pessoa de Jesus Cristo como centro da vida humana, razão pela qual o Evangelho deve ser proposta para e na vida das pessoas;
– uma pedagogia que valorize a vivência da fé nas comunidades cristãs;
– uma pedagogia de sinais, para que Palavra de Deus se transmita por meio de palavras e ações;
– e, por fim, mas não no fim, uma pedagogia que deixe espaço à ação do Espírito Santo, pois é dele que a catequese recebe a força e empenho para dar continuidade à revelação da ação de Deus no coração de cada pessoa.

«Graças ao dom do Espírito Santo enviado por Cristo, o discípulo cresce como o seu Mestre “em sabedoria, em estatura e em graça diante dos homens”» (DGC 142).