Entre a suspeita moderna diante de verdades “impostas” e a necessidade eclesial de uma palavra com densidade, o dogma cristão encontra-se hoje num cruzamento decisivo. Se for apresentado como ditado divino e código fechado, torna-se ruído cultural e fragilidade pastoral; se for reencontrado como memória viva do acontecimento revelador e como linguagem que faz nascer, na história e na consciência, o reconhecimento do Deus que já atua, então muda de estatuto: não encerra a busca, inaugura-a. É nesse deslocamento — da heteronomia para a maiêutica, da fórmula defensiva para a descoberta interior, do “ponto final” para a “plenitude aberta” em Cristo — que se joga a credibilidade intelectual da fé e a sua capacidade de dialogar, sem se dissolver, com a experiência contemporânea de autonomia, historicidade e desejo de sentido.

A teologia enfrenta hoje um desafio estratégico: repensar o conceito de dogma. Para a sensibilidade cultural moderna — que valoriza a experiência, a história e a autonomia da razão —, a imagem tradicional do dogma como um conjunto de verdades imutáveis, divinamente ditadas, soa como uma dissonância. Não se trata de uma mera querela académica; é uma questão de sobrevivência pastoral e de credibilidade intelectual. Uma fé que não consegue dialogar com a experiência moderna de autonomia e história arrisca-se a tornar-se uma relíquia cultural.
A questão central que se impõe é, portanto, inevitável: será o dogma um obstáculo fossilizado do passado, uma relíquia intelectual que nos afasta da experiência real? Ou poderá ser compreendido como a expressão viva de uma fé em contínuo diálogo com a realidade humana, não um ponto final, mas um ponto de partida? Para responder a esta pergunta, é imperativo descer às raízes históricas que moldaram a conceção tradicional, a fim de compreender as razões do seu esgotamento e vislumbrar um caminho para o futuro.
A origem de um mal-estar: a Revelação como ditado divino
A perceção popular do dogma como uma imposição externa está intrinsecamente ligada a uma determinada forma de compreender a “revelação”. O modo como se concebe a origem da verdade de fé determina, inevitavelmente, a sua vivência e o seu lugar no mundo. Historicamente, a experiência viva e concreta do encontro com Deus, tanto no Antigo como no Novo Testamento, sofreu um processo que se designa como a “progressiva verbalização” (René Latourelle, Torres Queiruga). A revelação, originalmente um acontecimento na história e na consciência, foi sendo cada vez mais reduzida ao modelo da palavra humana, culminando na ideia de um “falar categorial de Deus” que transmite mensagens, enuncia verdades e dita os livros sagrados.
O Iluminismo, com a sua crítica racional e histórica, transformou esta tensão num confronto por vezes dramático. A teologia, sentindo-se perseguida, adotou uma postura defensiva, “apologética”, que reforçou ainda mais este modelo. Para se proteger, a revelação foi enquadrada como uma “lista de verdades” inequívocas, manifestadas pela locutio Dei attestans, a conceção da fala de Deus como um testemunho divino que garante uma lista de verdades sobrenaturais. Este modelo intelectualista, embora historicamente compreensível como mecanismo de defesa, tornou-se um “modelo estreito” que, com o tempo, gerou um abismo crescente entre a fé e a experiência humana contemporânea. É este o modelo que hoje se revela esgotado e que exige, com urgência, uma nova perspetiva.
Repensar a Revelação: a descoberta interior da fé
Se o modelo antigo criou um tal abismo, qual é a alternativa? Teremos de escolher entre uma autoridade rígida e um relativismo sem critérios? A superação da crise do dogma passa, necessariamente, por uma reinterpretação radical da própria Revelação. Em vez de uma verdade imposta de fora, a alternativa propõe um processo intrínseco à própria realização humana. A categoria-chave para esta nova compreensão é a “maiêutica histórica” (Torres Queiruga). Distinta da maiêutica socrática — que consistia em recordar algo que a alma já sabia —, a maiêutica histórica refere-se ao ato de “dar à luz” uma consciência da presença de Deus que já atua secretamente na história e na vida da pessoa.
Neste modelo, a palavra reveladora não injeta uma verdade externa; atua como um catalisador, despertando um reconhecimento da presença Divina que já opera secretamente na vida e na história do indivíduo, e na qual é imprescindível a graça divina. Ajuda-nos a “dar à luz” uma verdade que podemos então assumir como nossa. A fé nasce do ouvir (fides ex auditu), mas floresce no reconhecimento interior. A implicação é profunda: a revelação, assim entendida, respeita e promove a autonomia humana. A fé deixa de ser uma heteronomia alienante para se tornar a descoberta de que a nossa mais profunda humanidade se realiza precisamente no encontro com Deus. É o cumprimento da promessa de Jeremias: «Estabelecerei a minha lei dentro deles e gravá-la-ei no seu coração. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo» (Jeremias 31,33).
Esta promessa de uma lei interiorizada, que encontra ampla ressonância em toda a tradição bíblica, reconfigura fundamentalmente a fé, mas levanta uma nova questão: se a Revelação é este processo universal e interior de descoberta, qual é, então, o papel único e definitivo de Jesus Cristo nesta história?
O significado de Cristo: plenitude aberta e não ponto final
A centralidade de Cristo, nesta nova compreensão, não reside na entrega de um código doutrinal fechado, mas na realização plena e insuperável do encontro entre Deus e a humanidade. Em Jesus — na sua vida, morte e ressurreição — a presença reveladora de Deus atinge a sua máxima intensidade e clareza histórica. Ele é a “plenitude” da revelação. Utilizando o conceito de prolepse (antecipação), formulado por Wolfhart Pannenberg, podemos dizer que em Cristo o “fim” da história se manifesta antecipadamente, iluminando todo o percurso humano sem, no entanto, o encerrar. Crucialmente, é a ressurreição que confirma esta plenitude. É o ato divino que, dentro da história, valida o sentido da vida e morte de Jesus, impedindo que se dissolvam numa ambiguidade trágica e estabelecendo-os, pelo contrário, como a lente definitiva através da qual se compreende a relação de Deus com a humanidade.
Paradoxalmente, esta mesma plenitude transforma-se numa abertura radical. Poder-se-ia esperar que uma revelação “plena” fechasse todos os outros caminhos. No entanto, precisamente por revelar o amor universal de Deus numa vida histórica e concreta, ela oferece um horizonte de sentido que não invalida as outras buscas humanas pela verdade, mas antes as ilumina, julga e cumpre. Não fecha a história, mas torna-se uma “memória” perene e uma “potência de futuro” que inspira e desafia cada geração a reler os “sinais dos tempos” à sua luz. Cristo não é um ponto final que estagna a busca, mas um horizonte que a potencia.
Conclusão: por uma fé dialogante
A superação da crise do dogma exige, em suma, abandonar a imagem de uma verdade imposta de fora para abraçar a de uma verdade que emerge do encontro vivo com o Deus que se revela na história e na consciência. A revelação não é um ditado, mas uma descoberta; a fé não é submissão, mas realização. As consequências práticas desta mudança de perspectiva são imensas. Conduzem a um cristianismo menos preocupado com a defesa de fórmulas e mais focado no oferecimento “maiêutico” de uma experiência de sentido, numa atitude de diálogo humilde com a cultura e com as “perguntas de fundo” que inquietam cada ser humano. O dogma, portanto, não é um ponto final, mas um ponto de partida. Não é uma jaula de respostas herdadas, mas uma bússola para uma jornada partilhada. Nesta luz, o dogma transforma-se: deixa de ser um peso que nos ancora no passado para se tornar um mapa dinâmico que, em vez de fixar fronteiras, aponta para o horizonte infinito da realização humana em comunhão com Deus.
