Homilia da Missa de Fim de Ano: UCP – Braga

Luís M. Figueiredo Rodrigues

Caríssimos amigos,

Nesta Missa de fim de ano, no Campus de Braga da Universidade Católica Portuguesa, reunimo-nos num momento muito concreto: as aulas aproximam-se do fim, os exames começam a desenhar-se no horizonte, o cansaço acumula-se, e as férias, que todos já desejamos, ainda tardam. Há, por isso, uma palavra que hoje nos encontra de modo particularmente verdadeiro: a palavra “caminho”.

No Evangelho, Bartimeu está sentado à beira do caminho. Não caminha; vê passar a vida, vê passar a multidão, ou melhor, não vê: escuta apenas o rumor do mundo que passa. É uma imagem muito forte. Também nós, no fim de um ano académico, podemos sentir-nos assim: à beira do caminho, cansados, gastos, talvez dispersos, talvez com a sensação de que já não vemos com clareza o sentido de tanto esforço. Há exames, prazos, trabalhos, responsabilidades, expectativas… E, quando o cansaço cresce, a visão estreita-se. Vemos apenas o imediato, o urgente, o que falta fazer. Perdemos de vista o essencial.

Bartimeu, porém, tem uma sabedoria que não devemos desprezar: sabe que não vê. E por isso grita: “Jesus, Filho de David, tem piedade de mim”. Muitos mandam-no calar. É sempre assim. Há vozes que nos mandam calar o desejo mais profundo: a voz da rotina, da pressa, da fadiga, da autossuficiência e da resignação. Mas Bartimeu grita ainda mais. A fé começa muitas vezes aí: quando, por entre o ruído, temos a coragem de dizer a Deus aquilo de que verdadeiramente precisamos.

E Jesus faz-lhe uma pergunta admirável: “Que queres que Eu te faça?” Bartimeu não pede vantagens, não pede facilidades, não pede que o caminho desapareça. Pede apenas: “Mestre, que eu veja”. Talvez esta seja também a oração mais justa para uma comunidade universitária: Senhor, que eu veja. Que veja o valor do estudo para além da classificação. Que veja o rosto das pessoas para além das funções. Que veja a verdade para além das aparências. Que veja o bem possível no meio das dificuldades. Que veja a minha vida não como acumulação de tarefas, mas como vocação, chamamento.

A Universidade existe precisamente para isto: para educar a visão. Não apenas para transmitir conhecimentos ou preparar competências, mas para ensinar a ver mais longemais fundo e com maior responsabilidade. Nela, a fé, a razão, a cultura, a ciência e a atenção ao humano são chamadas a encontrar-se, não para se confundirem, mas para se iluminarem mutuamente. Porque, numa universidade católica, ver não é apenas conhecer mais; é conhecer melhor. É aprender a olhar com inteligência, mas também com consciência. É cultivar ciência sem cinismo, pensamento sem arrogância, liberdade sem indiferença e competência sem perda de humanidade.

A primeira leitura diz-nos que somos “pedras vivas”. Esta expressão é muito significativa! A Universidade não se constrói apenas com edifícios, regulamentos, programas e avaliações. Constrói-se com pessoas vivas: estudantes, docentes, investigadores, colaboradores, todos chamados a entrar numa construção maior do que si mesmos. Cada aula dada com seriedade, cada exame preparado com honestidade, cada trabalho feito com rigor, cada gesto de cuidado, cada palavra que levanta alguém, tudo isso pode tornar-se parte deste “templo espiritual” de que fala São Pedro.

Mas para sermos pedras vivas precisamos de permanecer unidos à pedra viva que é Cristo. Sem Ele, podemos tornar-nos pedras soltas: competentes, talvez, mas isoladas; informadas, talvez, mas sem sabedoria; eficientes, talvez, mas sem ânimo. Com Cristo, porém, até o cansaço ganha outro sentido. O esforço não é apenas peso; pode tornar-se oferta. O estudo não é apenas obrigação; pode tornar-se serviço. O exame não é apenas prova; pode tornar-se ocasião de verdade, maturidade e confiança.

O salmo convidava-nos: “Vinde à presença do Senhor com cânticos de alegria”. Talvez hoje a alegria não seja exuberante. Talvez seja uma alegria cansada, discreta, quase humilde. Mas é precisamente essa alegria que pedimos: não a alegria superficial de quem não tem problemas, mas a alegria profunda de quem sabe que pertence a Deus. “Ele nos fez, a Ele pertencemos.” Esta pertença é a fonte da nossa liberdade. Antes das nossas notas, dos nossos cargos, dos nossos êxitos ou fracassos, somos de Deus. E porque somos de Deus, não estamos entregues ao acaso, nem reduzidos ao nosso rendimento.

Ao terminarmos este ano académico, peçamos então a graça de Bartimeu: “Mestre, que eu veja”. Que os estudantes vejam o sentido do seu esforço e não desanimem no tempo dos exames. Que os docentes vejam em cada aula uma forma de servir a verdade e formar pessoas. Que todos os que trabalham neste campus vejam que nenhuma tarefa feita com dedicação é pequena aos olhos de Deus. Que as nossas Faculdades sejam, cada vez mais, lugares onde se aprende a pensar, a discernir, a servir e a esperar.

Bartimeu começou sentado à beira do caminho. Depois de encontrar Cristo, passou a segui-l’O pelo caminho. Esta é a verdadeira passagem que hoje pedimos para todos nós: não ficarmos à margem, presos ao cansaço ou à distração, mas levantarmo-nos, deitarmos fora a capa que nos prende, e caminharmos com Cristo.

Porque só Ele é a luz do mundo. E quem O segue, mesmo quando ainda tem exames pela frente e as férias parecem longe, não caminha nas trevas: recebe a luz da vida.