Luís M. Figueiredo Rodrigues

Introdução
A saúde mental tornou-se uma das grandes questões públicas do nosso tempo, não apenas pela expansão de diagnósticos e pela visibilidade crescente do sofrimento psíquico, mas sobretudo porque expõe uma fragilidade estrutural do modo como estamos a viver. A definição da Organização Mundial da Saúde — que entende a saúde mental como um estado de bem-estar capaz de permitir lidar com as tensões da vida, aprender e trabalhar, realizar capacidades e contribuir para a comunidade — sublinha que não se trata de um tema restrito ao domínio clínico: trata-se da possibilidade mesma de habitar a existência com estabilidade interior, sentido e pertença. Ora, essa possibilidade encontra-se hoje profundamente ameaçada por uma mutação cultural que reconfigura a subjetividade e a experiência quotidiana: a passagem de uma vida compreendida como “morada” para uma vida vivida como “campo de treino” permanente, governada por uma lógica de otimização incessante, disponibilidade total e autoexigência contínua.
Este regime, que Byung-Chul Han caracteriza como sociedade do desempenho e que Alain Ehrenberg interpreta como gerador de uma “fadiga de ser-se a si mesmo”, produz um tipo de exaustão que não é apenas física, mas moral e espiritual, marcada pela sensação crónica de insuficiência. O sujeito contemporâneo já não se encontra apenas pressionado por normas externas; torna-se ele próprio o agente da sua vigilância e do seu esgotamento, interiorizando uma exigência de superação que se apresenta como liberdade, mas frequentemente funciona como coerção. O fenómeno torna-se ainda mais crítico quando esta gramática do desempenho invade o núcleo íntimo da vida familiar. A família, que deveria constituir o lugar da gratuitidade, do acolhimento incondicional e do repouso relacional, corre o risco de ser colonizada pela métrica dos resultados: a casa transforma-se em extensão do tribunal social, a educação em currículo competitivo, a infância em projeto de investimento, e a convivência em gestão de performance. Neste cenário, a saúde mental fragiliza-se não apenas por excesso de tarefas, mas por perda de atmosfera: diminui o espaço do descanso, do erro habitável, da vulnerabilidade permitida e da presença verdadeira.
É neste contexto que a espiritualidade e a religião emergem como dimensões que merecem ser reconsideradas, não em registo apologético, mas como possíveis recursos antropológicos e psicossociais de resistência. A literatura contemporânea tem mostrado que espiritualidade e religiosidade se associam, em múltiplos contextos, a indicadores relevantes de bem-estar, esperança, sentido de vida e resiliência, ainda que com efeitos heterogéneos e dependentes de mediadores como suporte social, qualidade comunitária e estilos de lidar com o estresse. Contudo, a pertinência desta abordagem não reside num suposto automatismo benéfico da religião, mas na possibilidade de reconhecer que a espiritualidade, quando amadurecida, pode reabilitar o “ser” sobre o “fazer”, devolver dignidade ao limite, reconstruir ritmos de descanso e sustentar vínculos de pertença. Por outro lado, impõe-se um discernimento crítico: a própria religião pode ser capturada pela lógica do desempenho, tornando-se mais um dispositivo de culpa, perfeccionismo e pressão espiritual, agravando o sofrimento que pretende aliviar.
O presente trabalho propõe, por isso, uma análise do lugar da espiritualidade e da religião na promoção da saúde mental no contexto das famílias, assumindo como tese central que a espiritualidade pode funcionar como antídoto à tirania da performance na medida em que restitui a gratuitidade à vida doméstica e oferece uma ecologia de sentido, pertença e descanso. Para o demonstrar, articula-se uma leitura crítica da cultura contemporânea do desempenho com contributos da literatura científica sobre espiritualidade/religiosidade e saúde mental, bem como com a investigação sobre rotinas e rituais familiares enquanto fatores de estabilidade afetiva. O objetivo é fornecer uma fundamentação conceptual rigorosa e, simultaneamente, abrir pistas operacionais: não para idealizar a família nem sacralizar práticas, mas para compreender como, em tempos de exaustão, a casa pode voltar a ser morada, e a interioridade pode voltar a ser lugar de liberdade.
1. O tempo da exaustão: quando a vida se torna um campo de treino
A contemporaneidade assiste a uma transformação silenciosa, mas decisiva, da forma como as pessoas se percebem e organizam a sua existência. Aquilo que, durante muito tempo, foi entendido como “vida” — um espaço habitável, com ritmos, limites e significados partilhados — é hoje frequentemente vivido como um “campo de treino” permanente, onde cada momento parece exigir otimização e resposta. Esta mudança é, simultaneamente, social e íntima: não é apenas uma alteração do mundo do trabalho, mas uma reconfiguração da subjetividade.
Byung-Chul Han descreveu esta mutação como passagem de uma sociedade disciplinar, estruturada por proibições, para uma “sociedade do desempenho”, marcada por uma positividade imperativa: já não predomina o “não deves”, mas o “tu consegues” — uma promessa que se converte facilmente em obrigação (Han, 2012). Alain Ehrenberg, por seu lado, leu a expansão do sofrimento depressivo como um sintoma cultural de uma norma que deixou de se apoiar sobretudo na culpa e na interdição e passou a assentar na responsabilidade, iniciativa e autoprodução do sujeito, gerando uma “fadiga de ser-se a si mesmo” (Ehrenberg, 1998). A exaustão que emerge deste regime não é apenas física; é moral e espiritual: uma fadiga ligada à sensação crónica de insuficiência, de nunca corresponder plenamente ao que se espera.
É neste contexto que a saúde mental se torna um tema inevitável. A Organização Mundial da Saúde descreve a saúde mental como um estado de bem-estar que permite lidar com as tensões da vida, pôr em prática o que se sabe e consegue fazer, aprender e trabalhar bem e contribuir para a comunidade. A formulação é importante porque desloca o foco do mero “controlo de sintomas” para a qualidade global de uma vida possível.
O ponto crítico, porém, é que a lógica do desempenho não permanece confinada aos ambientes formais de produtividade. Ela infiltra-se no espaço doméstico e tende a colonizar o que deveria ser gratuito: o amor, a educação, a convivência. A casa, historicamente lugar de repouso e descompressão, corre o risco de se tornar uma extensão funcional do exterior: uma espécie de “filial” do tribunal social, onde a harmonia se mede pelo sucesso, pela excelência, pela reputação, pela capacidade de “brilhar”. Quando isto acontece, as famílias passam a carregar uma pressão que não é apenas logística; é identitária: pais sentem-se falhados se os filhos não se destacam, crianças e adolescentes aprendem que o valor depende do resultado, e o quotidiano torna-se um ciclo de ansiedade, agenda e culpa.
2. Espiritualidade e religião: distinção necessária para um diálogo honesto
Para falar com rigor, é importante distinguir espiritualidade e religião, sem as separar artificialmente. Num quadro muito usado nas ciências da saúde, espiritualidade pode ser entendida como uma dimensão humana dinâmica e intrínseca, através da qual as pessoas procuram sentido último, propósito e transcendência, e vivem a relação consigo mesmas, com os outros, com a comunidade, com a natureza e com aquilo que reconhecem como sagrado. Esta compreensão foi formulada em contexto de consenso internacional para integração do cuidado espiritual na saúde e tem a virtude de não reduzir espiritualidade a crença privada nem a mera emoção: ela integra sentido, pertença, práticas e valores (Puchalski et al., 2014).
Religião, por seu lado, designa a mediação comunitária, institucional e simbólica dessa procura: pertença a uma tradição, participação em ritos, adesão a uma narrativa partilhada, inserção num horizonte ético e num tecido comunitário. Em termos simples: a espiritualidade refere-se ao modo como a vida se orienta pelo sentido; a religião refere-se ao modo como essa orientação é socialmente sustentada e transmitida.
A razão pela qual esta distinção é tão relevante para a saúde mental é simples: não existe um “efeito automático” da religião ou da espiritualidade. Elas podem proteger ou podem ferir. Podem ser lugar de esperança ou lugar de culpa paralisante. Podem abrir ao real ou funcionar como fuga. Por isso, o debate sério não é “a favor” ou “contra” a religião; é sobre a qualidade concreta da experiência espiritual e religiosa, sobretudo no interior das famílias.
3. O que diz a evidência: associação consistente, mas não mecânica
A investigação nas últimas décadas cresceu significativamente e sugere, de forma geral, uma associação entre espiritualidade/religiosidade e indicadores de saúde mental, incluindo bem-estar, esperança, sentido de vida e menor probabilidade de alguns desfechos negativos, dependendo de contextos e populações. Uma revisão de literatura recente sintetiza esta evidência e insiste, simultaneamente, na necessidade de nuance: os resultados são, em média, positivos em muitos estudos, mas heterogéneos e dependentes de mediadores como suporte social, estilos e estratégias de enfrentamento, e características da pertença comunitária (Lucchetti, Koenig e Lucchetti, 2021).
Do ponto de vista epidemiológico, há dados prospetivos robustos que sugerem relação entre participação comunitária religiosa e redução de risco de depressão incidente em determinados grupos, com destaque para estudos de coorte com grande dimensão amostral. Um exemplo frequentemente citado é um estudo prospetivo em mulheres que identificou associação entre maior frequência de participação em serviços religiosos e menor risco subsequente de depressão, considerando também a complexidade bidirecional entre depressão e diminuição da prática comunitária (Li et al., 2016).
Importa sublinhar o ponto metodológico essencial: correlação não equivale automaticamente a causalidade. A vivência religiosa pode ser marcador de suporte social, de hábitos protetores, de integração comunitária, de otimismo e de sentido. Ainda assim, mesmo quando se controlam vários fatores, a literatura continua a apontar que a espiritualidade e a pertença religiosa podem funcionar como recursos relevantes na arquitetura do bem-estar, o que justifica que sejam levadas a sério num modelo de cuidado integral. Esta visão alinha-se com abordagens contemporâneas de “saúde integral da pessoa”, que reconhecem que bem-estar e saúde se constroem integrando objetivos pessoais, redes de apoio e dimensões de sentido, em vez de se limitarem a uma lógica fragmentada por sintomas (National Academies, 2023).
4. A contribuição própria da espiritualidade: sentido, pertença e descanso
Se quisermos traduzir a relevância da espiritualidade para a saúde mental em linguagem humanamente inteligível, três palavras podem servir de eixo: sentido, pertença e descanso.
A primeira é sentido. Uma parte considerável do sofrimento mental não nasce apenas da dor, mas da impossibilidade de integrar a dor numa narrativa habitável. O sofrimento sem horizonte torna-se ruído interior e tende a degradar a esperança. A espiritualidade funciona aqui como gramática de interpretação: não elimina perdas, limites ou fracassos, mas impede que esses acontecimentos se tornem a única leitura possível do real. Ela ajuda a pessoa a não se reduzir ao seu sintoma, a não confundir a sua dignidade com a sua performance, a não interpretar o limite como falência ontológica. E isto é psicologicamente estruturante: o ser humano precisa de significado para sustentar o peso da existência.
A segunda palavra é pertença. O sofrimento contemporâneo está frequentemente ligado ao isolamento: a solidão não é apenas um desconforto social; é um fator de vulnerabilidade psíquica. Neste ponto, a religião pode ser decisiva quando é vivida como comunidade que acolhe, acompanha e sustenta. Não é indiferente enfrentar luto, doença, crise conjugal, precariedade ou fragilidade emocional dentro de uma rede humana que reconhece e ampara. A pertença reduz o isolamento e protege do colapso da autossuficiência. Por isso, em vários estudos, parte do “efeito” associado à participação religiosa parece passar por mediadores relacionais e comunitários.
A terceira palavra é descanso — e aqui a questão toca o nervo do nosso tempo. Na cultura do desempenho, o descanso é facilmente reduzido a intervalo funcional: uma pausa apenas para recuperar energia e voltar a produzir. A espiritualidade, porém, pode devolver ao descanso o seu sentido forte: descanso como ato de resistência, como reabilitação do valor intrínseco da vida, como afirmação de que a pessoa vale antes de render. Esta dimensão é decisiva para a saúde mental familiar, porque o lar só cumpre a sua vocação quando não é tribunal, mas morada; quando não exige justificação produtiva, mas oferece acolhimento.
Neste sentido, falar de espiritualidade como antídoto à tirania da performance é dizer algo muito concreto: a espiritualidade reabilita o “ser” sobre o “fazer”, recupera o direito humano à insuficiência e devolve ao limite uma dignidade que a lógica do sucesso tenta destruir.
5. A família como lugar decisivo: atmosfera, transmissão e ecologia mental
A família é o primeiro laboratório da saúde mental. É nela que se aprende, antes de qualquer teoria, se o mundo é confiável, se a vulnerabilidade é permitida, se o erro é humilhação ou aprendizagem, se a pessoa é amada por existir ou apenas por corresponder.
O que se transmite na família raramente se transmite por discursos longos; transmite-se por atmosfera. Uma família pode dizer as palavras certas e, ainda assim, gerar ansiedade se a sua estrutura afetiva for governada por pressão, comparação e exigência. Do mesmo modo, uma família pode ter poucos recursos discursivos e, no entanto, ser profundamente terapêutica se for lugar de presença, liberdade e confiança.
A investigação sobre rotinas e rituais familiares é particularmente esclarecedora: estudos de revisão em psicologia da família sugerem que rotinas e rituais se associam a melhor competência parental, melhor ajustamento das crianças e maior satisfação conjugal, funcionando como estrutura emocional e simbólica que protege o quotidiano do caos (Fiese et al., 2002).
Isto permite um ponto fundamental: a saúde mental familiar não é apenas uma soma de indivíduos “equilibrados”; é uma ecologia. E uma ecologia saudável requer ritmos, fronteiras, práticas de reconciliação e espaços de gratuitidade. Neste plano, a espiritualidade, quando bem vivida, não é mais uma tarefa na agenda; é o princípio que reorganiza a agenda a partir do centro: o sentido e a dignidade.
6. Quando a religião fere: coping negativo, culpa tóxica e bypass espiritual
A honestidade obriga a reconhecer que a religião pode, em certos contextos, agravar o sofrimento. A investigação sobre coping religioso tornou clássica uma distinção essencial: a religião pode ser recurso de enfrentamento positivo ou negativo, dependendo de como é mobilizada diante do stress. Kenneth Pargament descreveu este campo mostrando que a religião pode ser útil, nociva ou irrelevante, e que só uma análise “micro” das formas concretas de coping permite compreender os seus efeitos (Pargament, 1997/2001; Pargament, 1998).
Há, além disso, meta-análises recentes que mostram variabilidade dos efeitos de coping religioso sobre sintomas psicológicos, reforçando a ideia de que a questão não é “ter religião”, mas “como a usar” (Cheng et al., 2023).
No interior das famílias, os riscos são particularmente sensíveis. Uma religião vivida como vigilância moral permanente pode intensificar ansiedade; uma espiritualidade reduzida a contabilidade de virtudes pode alimentar perfeccionismo; uma linguagem de culpa pode degradar a autoestima e a confiança. É aqui que convém nomear também o chamado “bypass espiritual”, entendido como tendência para usar ideias e práticas espirituais para evitar enfrentar feridas emocionais ou tarefas psicológicas necessárias. A literatura em aconselhamento e saúde mental tem explorado este fenómeno, incluindo estudos empíricos preliminares que o relacionam com dificuldades de processamento emocional e ansiedade/depressão em certas populações (Cashwell, Glosoff e Hammond, 2010).
Este ponto é delicado, mas decisivo: uma espiritualidade autêntica não nega a vulnerabilidade; integra-a. Não usa Deus para silenciar o sofrimento; abre espaço para o sofrimento ser ouvido, acompanhado e atravessado. A fé torna-se terapêutica quando humaniza; torna-se perigosa quando desumaniza.
7. Tradução prática: como a espiritualidade protege a saúde mental da família
Uma ecologia mental saudável não se constrói apenas com ideias; constrói-se com práticas simples e consistentes, que resistam ao avanço da lógica mercantilista para dentro de casa. Num tempo de hiperconectividade, a proteção da atenção é um ato de soberania: definir fronteiras digitais claras é reconhecer que o ser humano não é função da sua capacidade de resposta imediata e de disponibilidade total.
Do mesmo modo, micro-rituais de transição — um breve silêncio, uma respiração consciente, uma pequena pausa antes de entrar no ritmo doméstico — permitem separar o desempenho profissional da presença relacional. Estes gestos são pequenos, mas clinicamente plausíveis: introduzem pausa, diminuem reatividade e ajudam a família a “habitar” a casa em vez de apenas “passar” por ela.
A espiritualidade familiar pode também reencontrar a sua expressão mais concreta em rituais diários de gratidão e discernimento sereno: não um exame do dia em autoacusação, mas uma revisão que nomeia bens recebidos, identifica tensões habitáveis e abre espaço a recomeços. A educação para o erro é, aqui, central: quando o erro deixa de ser humilhação e passa a ser aprendizagem, a casa torna-se lugar de crescimento e não de medo.
Importa, ainda, salientar que a promoção de saúde mental não deve opor fé e cuidado clínico. A integração é o caminho mais robusto: a fé pode oferecer esperança e sentido; a psicologia pode oferecer instrumentos de regulação emocional, elaboração de trauma e reconstrução de padrões relacionais. Esta visão convergente está hoje presente em abordagens que defendem a espiritualidade como dimensão relevante no cuidado e até como determinante social de saúde, precisamente porque as pessoas organizam a vida a partir de valores e horizontes de significado (Long et al., 2024).
8. Uma nota particular sobre adolescentes: identidade, coesão familiar e pertença
A adolescência é uma fase especialmente vulnerável à tirania da performance: identidade em construção, comparação intensa, pressão escolar e digital, necessidade de pertença. Estudos recentes sugerem que os níveis de bem-estar mental em adolescentes se relacionam tanto com variáveis religiosas como com coesão e atividades familiares, reforçando a ideia de que pertença e vínculos funcionam como fatores protetores (Bamford et al., 2023).
Importa ler estes dados com cautela, mas eles convergem com uma intuição antropológica forte: a família protege quando é lugar de identidade segura; e a espiritualidade protege quando oferece identidade que não depende do êxito imediato.
9. Conclusão: a saúde mental floresce quando o amor vence a métrica
Em última análise, a saúde mental no contexto familiar depende da coragem de resistir à conversão da vida em desempenho. A espiritualidade — e, em muitos casos, a religião vivida com maturidade — é um antídoto porque restitui a gratuitidade à existência, devolve à pessoa o direito à insuficiência e reinstitui o descanso como linguagem de dignidade. A família deve ser o lugar onde o amor incondicional substitui a métrica do rendimento. Quando a casa volta a ser morada, a vida interior ganha espaço; quando o limite deixa de ser vergonha, a ansiedade diminui; quando o sentido volta a estruturar o tempo, o coração encontra repouso. E este repouso não é fuga do mundo: é a condição para nele habitar com humanidade, com esperança e com liberdade verdadeira.
Neste horizonte, e para concluir com um exemplo, importa reconhecer também o valor potenciador do escutismo como ecologia educativa que serve a saúde mental das famílias. Ao educar para a responsabilidade, o serviço e a cooperação, o escutismo oferece um modelo de crescimento que não se funda na competição, mas na maturação progressiva; reabilita a importância do caminho, do esforço paciente e da aprendizagem a partir do erro; e cria ritmos alternativos à aceleração digital, devolvendo lugar ao corpo, à natureza, ao silêncio e à atenção partilhada (C. Dibben, C. Playford e R. Mitchell, 2017). Para muitos adolescentes, ele constitui um espaço estruturado de pertença e identidade segura, onde o reconhecimento nasce do compromisso e da utilidade, e não da exibição. Para as famílias, pode funcionar como aliado discreto, mas decisivo: alarga a rede comunitária de suporte, reforça valores de interioridade e solidariedade, e recorda — de modo muito concreto — que crescer não é “vencer”, mas tornar-se capaz de amar, servir e habitar a vida com inteireza.
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