
Durante demasiado tempo repetiu-se, quase como evidência escolar, que fé e ciência seriam rivais por natureza. Porém, essa narrativa é relativamente recente: durante séculos, o pensamento científico cresceu em diálogo com a matriz religiosa e com instituições que preservavam saberes e promoviam a investigação. A história é mais complexa do que a caricatura do conflito permanente: houve tensões e episódios graves, mas também resistências e impulsos de renovação, erros e capacidade de correção à luz de novos dados. Defender esta harmonia histórica não é negar conflitos pontuais, mas recusar a ideia de duas esferas condenadas ao choque.
A clarificação decisiva passa por distinguir competências. A ciência ocupa-se das causas próximas e dos mecanismos: descreve, mede, modela e testa hipóteses. A fé interroga o sentido e o horizonte último do real, podendo oferecer critérios éticos para orientar o uso do saber e sustentar uma antropologia que salvaguarde a dignidade humana quando o humano tende a reduzir-se a dados, utilidade ou desempenho. O conflito surge quando uma delas se converte em ideologia: quando a fé pretende substituir a investigação empírica, ou quando a ciência reivindica ser explicação total do real e árbitro do absoluto. É precisamente por isso que continua a ser luminosa a intuição de Galileo Galilei, ao recusar a oposição entre fé e uso rigoroso da razão: «não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto tenha pretendido que renunciássemos ao seu uso e, por outros meios, nos concedesse o conhecimento que podemos alcançar por meio deles» (Galileo Galilei, Carta à Grã-Duquesa Cristina da Toscana, em 1615).
É neste enquadramento que a modernidade marca uma inflexão cultural. A suspeita sobre a tradição e a confiança no progresso técnico como promessa de salvação favoreceram leituras beligerantes. Novas cronologias da Terra, a ampliação das escalas temporais, hipóteses sobre a transformação das espécies e leituras históricas dos textos sagrados radicalizaram o debate num “tudo ou nada”, ao confundir-se a revisão de interpretações com a negação de Deus. A polarização ganhou força porque é retoricamente eficaz: simplifica, escolhe inimigos claros e dispensa o trabalho paciente de integrar níveis distintos de explicação. Ainda assim, a rutura não foi homogénea: houve investigação conduzida por pessoas crentes e discussões atravessadas por interrogações espirituais genuínas.
A consolidação, no imaginário público, de uma “tese do conflito” ajudou a fixar uma mitologia de guerra permanente. Recuperar a harmonia histórica entre fé e ciência é, por isso, um ato de lucidez: a ciência precisa de humildade epistemológica e de uma ética do conhecimento; a fé precisa de inteligência crítica e de disponibilidade para purificar leituras inadequadas do mundo. E ambas beneficiam de uma pedagogia pública que distinga perguntas: como funciona o mundo, como devemos agir nele, e para que vale a pena viver. Nesse horizonte, a própria experiência científica pode voltar a ser reconhecida, não como concorrente do espírito, mas como escola de assombro e de responsabilidade, na linha do que Carl Sagan formula de modo exemplar: «A ciência não é apenas compatível com a espiritualidade; é uma fonte profunda de espiritualidade. Quando reconhecemos o nosso lugar na imensidão de anos-luz e na passagem dos tempos, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a subtileza da vida, então esse sentimento de elevação, essa sensação de euforia e humildade combinadas, é certamente espiritual» (Carl Sagan, The Demon-Haunted World, 1997, p. 32). Se a modernidade legou um guião de antagonismo, o nosso tempo pode escolher uma convivência madura, em que racionalidade científica e confiança crente se reconheçam como distintas, mas não inimigas, capazes de convergir na busca do verdadeiro e na responsabilidade pelo humano.
in Diário do Minho (03.01.2026) 106, 34468, p. 2.
